Tem dias que eu só não tenho forças. Meu corpo fica pesado, eu não tenho vontade de fazer nada. Escrever torna-se um peso enorme que meus braços não conseguem aguentar. Mal consigo aguentar minha cabeça em meu pescoço. A vontade é de deitar no chão e ali ficar. 

Poesia - A Caça


A Caça

Seus olhos me perseguem durante à noite, 
Sua voz continua ecoando em minha mente,
Estendo o braço, a mão, meus dedos... 
Ah! Se eu pudesse mostrar do que são capazes...

Você brinca com minhas palavras e se deleita,
Atiça meu desejo e me tira dos eixos,
Afaga meu ego até transbordar pelas pernas,
E então me deixa ali, sem nem se importar.
Tem dias que a tristeza aperta o peito, o choro transborda pelos olhos e não há razão suficiente dentro de mim que me segure. O silêncio é ensurdecedor. A dor da saudade aparece como quem não quer nada, de mansinho, trazendo lembranças boas. Amanhã olharei para o sol, que mal aparece, vou fingir que nada disse, que nada pensei e que nada senti. Vou retomar meu orgulho, pegar minhas malas, e continuar caminhando.

Conto - Biscoitos e Café



N/A: Conto inspirado na música "Apenas mais uma de amor" do Lulu Santos.

Biscoitos e Café

Ela era doce. Seus olhos verdes se destacavam por detrás das lentes finas dos óculos de aro redondo que ela usava. Seus cabelos cacheados emolduravam seu rosto rechonchudo e seus lábios carnudos estavam sempre pintados em tons pastéis. Todos os dias, às quatro horas da tarde, Gabriela se sentava na varanda de casa com um livro em mãos, observando a paisagem verde ao seu redor. Esticava os braços preguiçosamente, estralava o pescoço, respirava fundo e só então se aconchegava na cadeira. De livros em mãos, mergulhava na leitura durante minutos, horas inteiras, até que o cheiro de biscoitos invadia suas narinas, obrigando-a a largar a história. Afinal, ninguém resistia aos cookies deliciosos de vovó.

            Dona Carmélia, vulgo minha avó, já passava dos setenta e infelizmente não conseguia mais viver completamente sozinha. Precisava de uma dama de companhia que pudesse, inclusive, dormir lá aos finais de semana. A dama escolhida foi Gabriela, uma professora de trinta e dois anos que era sua vizinha. Solteira, sem filhos e morando com o irmão, Gabriela não se incomodava de ajudar minha avó em tudo o que precisasse. E assim, dia após dia, enquanto minha avó fazia peripécias na cozinha, ela se aproveitava de algumas horas de sossego para realizar sua tarefa preferida: ler.

Conto - Apostando Tudo

         



      O dia era primeiro de agosto. A primeira aula era de Linguística e Literatura e eu já estava meia hora atrasada. Chegando à faculdade, resolvi ir até a cantina tomar um café enquanto esperava para entrar na segunda aula. Eis que me deparo com a mulher mais linda da minha vida, sentada à mesa perto da parede. Ela lia um livro, as pernas cruzadas, tomando um café. Comprei um cappuccino e sentei-me a certa distância, apenas observando aquela moça tão elegante. De vez em quando, uma de suas mechas loiras caía sobre os olhos e ela logo a colocava em seu devido lugar. Quem era ela? O que estava fazendo ali? Por que eu nunca a havia visto? Aquelas perguntas rondavam minha cabeça durante um tempo.

            Eu estava tão interessada em decorar todos os detalhes que eu pudesse captar daquela mulher que nem percebi seus olhos cinza encarando os meus. Quando a ficha finalmente caiu, engasguei com o gole da bebida que eu havia acabado de tomar! Jesus! E agora? Pensa rápido, pensa rápido! Olhei para baixo, enxugando a boca com as costas da mão. Será que ela percebeu? Após alguns segundos, quando finalmente consegui reunir coragem para levantar a cabeça, vi que um sorriso dançava nos lábios dela. Droga, ela tinha percebido. De repente, ela se levantou. Pegou sua bolsa, jogou o papel no lixo e veio vindo em minha direção. Meu Deus do céu!
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