Conto - O Canto Mais Escuro


Ganhou o prêmio literário "Darcy Ribeiro" em 1° lugar na categoria Conto - Adulto na 14ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto - 2014.
 N/A: Escrevi esse conto para o concurso literário da Feira do Livro, baseado no tema "Seguir em frente sem medo de ser feliz", e ele ganhou em 1° lugar em âmbito nacional. Resolvi postar, por ter gostado muito dele. Espero que gostem! Boa leitura!
http://www.feiradolivroribeirao.com.br/noticias/cerimonia-premia-21-escritores-em-concurso-literario-da/

O Canto Mais Escuro

São 4:30 e ainda está escuro lá fora. Levanto da cama quente, escovo os dentes brancos e rumo à cozinha aprontar o almoço. As crianças dormem tranquilamente no quarto pequeno. Enquanto as horas voam no relógio, engulo um café preto e meio requentado entre uma peça e outra de roupa. Todos os dias a mesma rotina. Logo antes do nascer do sol, já espero o ônibus das 6 da manhã, com as senhoras segurando a bolsa junto ao corpo, com medo até da sombra. Claro. Onde já se viu? Um assalto em cada esquina, uma morte em cada canto. Como sempre, a lotação me impede de sentar, o suor escorre no rosto, abafado, cidade quente como nunca se viu. Rostos animados, rostos apreensivos, rostos ansiosos, com o dia de trabalho que se estende à nossa frente. No balanço da condução os olhos vagueiam pelas ruas, avenidas, pelos prédios altos do Leblon, os muros pichados e a multidão seguindo. Trabalho digno de uma população cinza. Será?

Fanfic: Castle Walls - Parte 05


Parte 05

Aqueles dias que se passaram após minha volta foram bem tumultuados. Os dias de folga foram ótimos, e eu realmente estava precisando, mas isso fizera com que o meu trabalho se acumulasse. Passei uma boa semana lotada de tarefas e casos em andamento. Fechamos alguns, enquanto muitos outros se abriam. Logo nos primeiros dias não falei com Addison, ela não me ligou e eu também não a procurei. Eu sentia muita falta dela, principalmente à noite, mas achei que fosse melhor ficarmos afastadas. Em compensação a tanto trabalho, meus dias estavam sendo divertidos e um pouco tranquilos com a presença de Castle. Ainda que eu o achasse um pouco imaturo na maioria das vezes, era divertido. Trabalhávamos em um caso logo depois que voltei de LA, e muitas coisas acabaram coincidindo. A resposta dele para tudo era: destino. O universo queria que encontrássemos o corpo e que resolvêssemos o caso. Eu o olhava incrédula com um sorriso no canto dos lábios. Ele entendia bem a mensagem.

Imagens Que Contam Histórias 24


Era tarde da noite, e sem conseguir dormir, rolando de um lado para o outro na cama, resolvi levantar e depositar meus pensamentos em um papel velho: eu ia lhe escrever uma carta. Deixei com que a caneta facilmente deslizasse no papel, imprimindo todas as minhas dores e dúvidas. Essa incerteza de não ter, não pertencer, queimava-me a alma, e agora era como se a caneta estivesse incandescente. A tarefa era árdua, mas continue abrindo-lhe o coração. Madrugada fria, fui até a cozinha e coloquei um gole de café morno na xícara e voltei para o quarto, parando para observar a janela. O luar estava alto, e eu podia ver o topo dos prédios a partir da janela do meu apartamento. Suspirei, sentindo-me sufocada. Voltei a me sentar, depositando a xícara ao lado. Eu me sentia tão só, precisava tanto de alguém ao meu lado... Mas não alguém ausente, um ser presente. Alguém que me abraçasse, que dissesse que não iria embora, e que cumprisse a promessa. Que quisesse me ter pra sempre. Sinceramente, eu estava cansada de correr, fugir, fingir. O soluço veio súbito, e eu não pude contê-lo; nem tentei, pra ser sincera. Enquanto a caneta rapidamente transformava em palavras os meus sentimentos malditos, meu peito se enchia de uma raiva genuína. Dor e mágoa há muito guardados, e quando dei por mim, eu já rasgava o papel. Merda! Joguei a caneta longe, e no rápido movimento, derrubei a xícara com o líquido preto, agora totalmente frio. Observei-o escorrer pelo papel, com uma certa mórbida curiosidade, descobrindo os desenhos que ele fazia, enquanto manchava tudo de marrom. Dos dois buracos negros que eu havia feito, escorriam lágrimas de café, e o sorriso sincero abriu-se em meu rosto. A tristeza estampada no rosto encovado da solidão, impressa em um autoretrato da amante de café: eu mesma. Então eu chorei, em silêncio, deitando a cabeça em cima da mesa, sentindo o coração se apertar no peito, uma dor realmente física, desejando, bem lá no fundo, que eu morressse de um ataque cardíaco. Covarde, eu sabia, mas naquele momento, eu não me importava. E ainda que soubsesse que eu iria estar de pé quando o sol raiasse, fechei os olhos e derramei o café amargo da solidão, vomitei as palavras entaladas na garganta, e esperei pela benção da inconsciência do sono.

Solidão


Essa solidão que habita em mim,
Será que um dia irá partir?
Gosta de me enganar, fingi-se de morta,
E quando menos espero, aparece novamente. 

Essa solidão que habita em mim,
Não entendo a razão de querer ficar.
Vá-se embora, já me habita há tempo demais.
Não te quero por aqui, apertando-me o coração.

Olha Só


Olha só o que fez comigo, minha menina
Meu pensamento está em você todo dia.
Já não faço mais nada sem me perguntar:
Estará você pensando em mim também?

Olha só o que fez comigo, minha flor
Tenho a necessidade de te levar comigo aonde for.
Quero compartilhar com você meus momentos,
Chorar em seu ombro e rir de suas palhaçadas.

Menina-café


Todos os dias eu acordava cedo, e ia zumbizando até o banheiro, depois me arrastava até a cozinha na intenção de começar a preparar meu café. Colocava o pó no coador, e sentava-me na bancada esperando ficar pronto. Meu único alento era saber que logo aquele cheiro delicioso iria me embriagar, e que logo eu iria me deliciar em seu sabor. Todos os dias a única certeza que eu tinha, que me animava o dia, era saber que eu tinha o meu sagrado café a me fazer companhia.

Então, um dia acordei de um pulo, coração acelerado, o dia já tardava pela janela. Não ia dar tempo de fazer o café! O mau humor já me pegou de jeito, e eu previ que seria um dia ruim daqueles. Mas foi então que o cheiro característico invadiu minhas narinas. Achei que estava maluca, sonhando, ou delirando, pra falar a verdade. Curiosa, nem fui ao banheiro, deixei-me guiar pelo meu tão amado cheiro. Flutuando até a cozinha, parei escorada no batente da porta, e foi a visão mais linda que eu já tive.
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