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Imagens Que Contam Histórias 28


Música: I Don't Dance - Lee Brice 
(https://www.youtube.com/watch?v=fBEBbgQEJy4)

Respirou fundo algumas vezes, tentando se acalmar, enquanto se preparava para subir no palco. Onde ela estava com a cabeça quando inventou aquilo? Claramente não estava em cima do pescoço! Respirou novamente uma, duas vezes, como se o nervosismo que embrulhava seu estômago pudesse desaparecer. Olhou da onde estava para a multidão que curtia o show de talentos da escola. Tantos adolescentes pulando enlouquecidos com o som de rock que rolava. Provavelmente achariam brega o que ela tinha para dizer? Talvez... Mas estava decidida a tentar, pois desde o dia em que a conheceu sua vida inteira mudou. Esperou que os meninos do terceiro ano acabassem de tocar, e enquanto se despediam jogando beijos e piscadelas, ela fechou os olhos brevemente, reunindo coragem. Era agora ou nunca. Chamou sua amiga, que carregava um violão, e ambas subiram no palco. A plateia ficou o mais quieta possível para jovens daquela idade. Todos estavam curiosos, e alguns até externaram seu pensamento gritando o que ela iria cantar. Morrendo de vergonha, ela escaneou a multidão com os olhos castanhos até achar quem ela queria. Seus olhos se fixaram nos verdes, e ela poderia jurar que a loira prendia a respiração ao vê-la ali em cima. Sorriu, e tentou de uma vez deixar de lado seu nervosismo.

Imagens Que Contam Histórias 27


(*essa é uma foto reprodução de um quadro pintado pelo Bueno*)

Essa história não é sobre o amor, ou sobre como duas pessoas apaixonadas trocam carícias e beijos ardentes na noite abençoada de Paris. Essa história não é sobre um casal que se viu pela primeira vez, e teve seus corações arrebatados pelo cupido da paixão. Essa história também não é sobre amantes antigos que se reencontram após anos e anos de separação, e se reconectam com um beijo ardente cheio de saudade. Não... Apesar de o foco ser esses dois enamorados em primeiro plano, cheios de amor para dar, embaixo de um céu estrelado e chuvoso de Paris, essa história é sobre aquela garota. É, aquela ali atrás óh, que você mal vê, mal enxerga. Essa história é sobre mim, e eu sou aquela garota. Pois pra mim não há esse amor fácil, não há essa magia em Paris e nem a chuva com gosto de beijo. Pra mim, as ruas estão cheias de poças e a chuva gela meus ossos e eu mal posso me esconder dentro do guarda-chuva. Para mim, as luzes de Paris servem apenas como iluminação para que eu veja o caminho e não seja assaltada no escuro. Pra mim, Paris não significa nada, apenas uma cidade que me acolheu para que eu tivesse onde morar. Eu não sou a escolhida, eu nunca fui a escolhida, e saber disso dói. Mas a chuva me protege e eu finjo que meu pranto é só reflexo das gotas finas de novembro. Para mim, não há magia, não há amor, não há ninguém especial. Aliás, houveram... Eu é que não fui especial para ninguém. Não a ponto de ser escolhida para uma história de romance como casal principal se beijando em Paris. Não... E se fosse um conto de fadas, poderia dizer que a história deles acaba aqui, com um final feliz e uma vida inteira de casal pela frente, aprendendo a lidar um com o outro. Para mim, a vida não tem fim. Minha sina não acaba aqui, não sei se feliz ou infelizmente. Para mim eu tenho que aprender a lidar comigo mesma e com minha solidão pelo resto da vida. E vamos andando, apertando o passo, porque já é tarde e vou perder o ônibus.


Imagens Que Contam Histórias 26


Você é única. Você é especial. Você é você, e ninguém mais. Você, e só você, tem a chave para a minha alma. Você me tocou, e me obrigou a olhar em seus olhos. Obrigou-me a ver a sua alma refletida nas íris cor de chocolate. Seus dedos queimaram-me o rosto, como um tapa levado e jamais esquecido. A vermelhidão sumiu com o tempo, mas a ardência permaneceu. Você me transformou. Antigamente, não havia nada, tudo estava em formação. Você é teimosa. Você insistiu em cruzar meu caminho antes do tempo. E dessa forma, você me moldou. Seus dedos, ao me tocarem, misturaram-se em mim. O chocolate e o leite sendo misturados e batidos dentro de um mesmo recipiente. Exatamente, batidos. Fundidos. Você me fundiu em você. Ou melhor, você se fundiu em mim. Nada havia aqui antes de você. Mas seus olhos... Nunca houve conexão tão instantânea, seus olhos se conectaram aos meus, nossas almas se reconheceram, e você plantou morada em meu coração. A garota se transformou. O caminho foi traçado. E o nosso destino, profetizado. Em minhas veias já não havia sangue: apenas tinta. Tinta negra escorrendo em abundância, implorando para ser usada, abusada, rabiscada. Como negar o que foi me dado com tanta veemência? E então eu escrevi. Escrevi, e escrevi e escrevi. Páginas e páginas de rabiscos, palavras, pinturas, desenhos, escrituras. Seus olhos me ditavam o que escrever. Seu coração em sintonia com meu batimento cardíaco. Fiz-me costureira e vesti-me com meu escrito. E então, como em um passe de mágica, seus olhos ficaram secos. Seus cabelos cor de fogo perderam a cor, suas folhas murcharam. E a conexão foi desfeita. Perdida, continuei tentando reproduzir o nosso sentimento do que eu me lembrava, mas com o tempo tudo foi se perdendo no tempo e espaço, e a falta de memória me consumia dia após dia. Cansada, desesperada, enraivecida, rasguei todos os rascunhos de dias melhores que eu guardara para lhe mostrar. Joguei-os no lixo. E na falta do papel, deixei que a pena penetrasse em minha carne e escrevesse em minha pele aquilo que me faltava. Como se assim eu pudesse repor a parte que me faltava: você. A tinta escorria pelo chão, manchando tudo de negro, exatamente como minha alma. Exatamente como meu caminho. A sala escura. Sem luz. Eu esperei, por tanto tempo esperei... E um dia, você voltou. Seus olhos se conectaram aos meus, trazendo-me vida. Fogo. Você ardia e irradiava luz pela sala. A tinta em meu corpo reagindo ao seu toque divino. Trazendo-me à vida. Mas algo faltava... Faltava... Olhei dentro de seus olhos, das íris cor de chocolate, procurando desesperadamente pela tua alma, mas não encontrei. Não estava ali. Você não estava ali. Seus olhos, ligados aos meus, não me deixavam partir, mas você também não desejara ficar. Sem tua alma, a conexão jamais se completaria. Eu jamais escreveria. E nós jamais nos amaríamos. Foi então que eu entendi: você é minha musa. Você, somente você. É sempre você. Sempre será você. E me rasga o peito, pois você não está aqui. E me rasga a memória, porque você não deixou que eu lhe visse. E me rasga a pele, pois a tinta começa a secar no chão fresco, e logo não haverá mais a fonte de onde ela possa jorrar.

Imagens Que Contam Histórias 25


Andava sem rumo pela rua movimentada, sem ninguém prestar-lhe atenção, preferia assim, até que o cadarço do seu tênis desamarrou. Geralmente não dava muita atenção a isso, era capaz de andar com ele daquele jeito mesmo, mas um trupicão que quase lhe levou ao chão a fez pensar que seria melhor parar e ajeitar o sapato. Em uma rua sem saída, sentou-se no chão e começou a enlaçar o cadarço. De repente, sentiu algo nas costas, um leve peso, que não a assustou, mas a deixou ressabiada. Era uma garota das ruas, nunca confiava em ninguém, não tinha ninguém, então olhou com cautela, e se surpreendeu ao ver uma garota que sentara de costas para ela, encostada nela. Seu instinto era sair correndo, não entendia como aquilo estava acontecendo, mas dentro de si sabia que não deveria se mexer. Olhou de lado, observando a paz naquele rosto angelical, e seu coração se acalmou. Desejou, por um mísero segundo, ter uma família como a aquela garota deveria ter, ser cuidada daquela forma, bem vestida, ter alguém que se importasse com ela. Sorriu, e depois deixou o rosto sério novamente. De leve, cutucou a menina, dizendo-lhe que ela deveria ir pra casa. A garota sorriu, disse que estava muito cansada pra continuar, por isso pegara no sono, pedira desculpas pelo incômodo, e agradecera por ser um anjo e ter cuidado dela por aqueles poucos minutos, sabia que nenhum mal iria lhe acontecer. Levantou-se e foi embora, sumindo na próxima esquina. Ela ficou ali, sem entender, surpresa, e com o coração a mil e as lágrimas nos olhos.

Imagens Que Contam Histórias 24


Era tarde da noite, e sem conseguir dormir, rolando de um lado para o outro na cama, resolvi levantar e depositar meus pensamentos em um papel velho: eu ia lhe escrever uma carta. Deixei com que a caneta facilmente deslizasse no papel, imprimindo todas as minhas dores e dúvidas. Essa incerteza de não ter, não pertencer, queimava-me a alma, e agora era como se a caneta estivesse incandescente. A tarefa era árdua, mas continue abrindo-lhe o coração. Madrugada fria, fui até a cozinha e coloquei um gole de café morno na xícara e voltei para o quarto, parando para observar a janela. O luar estava alto, e eu podia ver o topo dos prédios a partir da janela do meu apartamento. Suspirei, sentindo-me sufocada. Voltei a me sentar, depositando a xícara ao lado. Eu me sentia tão só, precisava tanto de alguém ao meu lado... Mas não alguém ausente, um ser presente. Alguém que me abraçasse, que dissesse que não iria embora, e que cumprisse a promessa. Que quisesse me ter pra sempre. Sinceramente, eu estava cansada de correr, fugir, fingir. O soluço veio súbito, e eu não pude contê-lo; nem tentei, pra ser sincera. Enquanto a caneta rapidamente transformava em palavras os meus sentimentos malditos, meu peito se enchia de uma raiva genuína. Dor e mágoa há muito guardados, e quando dei por mim, eu já rasgava o papel. Merda! Joguei a caneta longe, e no rápido movimento, derrubei a xícara com o líquido preto, agora totalmente frio. Observei-o escorrer pelo papel, com uma certa mórbida curiosidade, descobrindo os desenhos que ele fazia, enquanto manchava tudo de marrom. Dos dois buracos negros que eu havia feito, escorriam lágrimas de café, e o sorriso sincero abriu-se em meu rosto. A tristeza estampada no rosto encovado da solidão, impressa em um autoretrato da amante de café: eu mesma. Então eu chorei, em silêncio, deitando a cabeça em cima da mesa, sentindo o coração se apertar no peito, uma dor realmente física, desejando, bem lá no fundo, que eu morressse de um ataque cardíaco. Covarde, eu sabia, mas naquele momento, eu não me importava. E ainda que soubsesse que eu iria estar de pé quando o sol raiasse, fechei os olhos e derramei o café amargo da solidão, vomitei as palavras entaladas na garganta, e esperei pela benção da inconsciência do sono.

Imagens Que Contam História 23


Ela sentou-se na cama de costas para mim, onde estiveramos conversando minutos antes. Eu continuei meio sentada, meio deitada, olhando as costas bem desenhadas. Ela olhou-me por cima do ombro, indecisa, com os olhos cravados nos meus. Estremeci. Eu sabia o que aquele olhar significava, e também estava sem saber como proceder. Com os dedos nos lábios, hábito que tinha, encarava-me, esperando uma iniciativa da minha parte. O que poderia eu fazer? Tudo começara como uma brincadeira, ali, naquela cama. As provocações, os pequenos gemidos, as revelações e segredos... E então, as coisas foram se complicando, e os sorrisos ficando mais sinceros. As vontades viraram necessidades, e os quereres, exigências. Quando percebi, já estava cravando a marca perfeita dos meus dentes em seus ombros macios. Tínhamos levado adiante, como brincaidera, até onde dera, mas agora era o momento fatal. Ela mordeu o lábio inferior, com o ombro tão convidativo para mim. "E então?" sussurrou. Levantei-me, sorrindo, encostando-me às suas costas, o rosto colado ao dela, e sussurrei "Me deixa morder seu ombro?" Sorri, respirando em seu pescoço, e ela abriu um largo sorriso com o pedido. Não durou mais do que alguns segundos, para que a confirmação viesse de seus olhos castanhos claros. Minhas mãos arrastaram a gola da blusa, e meus dentes arranharam a pele fina, logo mordisquei o ombro que tanto me tirava o sono. Um gemido escapou por entre seus lábios, trazendo-me a confirmação.

Imagens Que Contam Histórias 22


Ela veio correndo por entre as árvores, finalmente parando perto da onde eu estava sentada. Olhou a sua volta, tentando enxergar por detrás da névoa que havia naquele dia. Olhou para o céu cinza, depois deu uns passos para trás, olhou novamente pelo caminho da onde viera, e fitou o vazio. Sua respiração voltando ao  normal, lentamente, enquanto as esperanças que ela claramente ainda nutria iam se esvaindo, escorregando por entre os dedos, até o mínimo gotejar finalmente se extinguir. De repente, seus olhos estavam sobre mim, dentro dos meus. E eu não consegui me desviar, mexer, evitar. Puxavam-se para dentro dela, para a dor que sentia. Os lábios carmim fechados, os cabelos levemente se balançando com o vento. E os seus olhos plantados nos meus, fincados. Ela viera correndo, parecia fugir de alguma coisa, e de imediato identifiquei medo naquelas íris escuras, mas aos poucos descobri que não era só medo. Havia tristeza, uma tristeza profunda, e uma grande solidão. Uma angústia me invadiu de repente, como se eu não suportasse mais olhar para ela, como se eu precisasse fazer algo para mudar o curso da sua vida, mas eu não conseguia. Eu não podia me mexer, e ainda assim, era como se eu mesma sentisse o que ela sentia. O momento se quebrou quando a chamaram, alguém rapidamente agarrou no braço dela. Gritava, nervoso, dizendo para ela nunca mais fazer aquilo. Por um minuto, ela virou-se de costas para mim e encarou o seu carrasco. Eu ainda estava hipnotizada demais para poder distingui-lo. Começou a arrastá-la pela rua, mas antes de ir, ela me olhou novamente, pela última vez. Seus olhos me puxaram para o fundo da alma da sua dona, fazendo-me gritar por dentro, sem conseguir entender como ou porquê. Sua voz muda gritava-me por ajuda, mas seus olhos intensos sabiam que eu nunca poderia ajudar. 

Imagens Que Contam Histórias 21


Não, a chuva não é minha amiga. Nunca foi, e nunca será. A chuva me assusta. Já lhe contei isso, não contei? Você adora pular e brincar na água gelada que cai lá fora. Eu me encolho de medo, cada gota corroendo meu corpo pequeno. Cruzo os braços, abaixo a cabeça, na vã tentativa de me proteger. E eu que achei que agora as coisas tinham mudado... Tola ilusão. Tentei sair correndo na chuva e agora estou aqui, tremendo de frio, nessa noite solitária. Não lhe julgo, doce criança. Sei que está por perto, esperando que eu vá brincar contigo, esperando que eu corra, salte e grite, mas irei lhe desapontar, sem querer, do mesmo modo como me desapontou. Você está por perto, mas não é aquela que segura em minha mão, puxa-me para fora do conforto, e me sorri. Você espera que eu corra sozinha. Pois bem, minha amiga, não posso sair ainda. Os cabelos escorrem, a roupa enxarcada, e o sorriso sumiu. Não leve para o pessoal, é só minha velha amiga insegurança, que de vez em quando resolve aparecer. Você não irá me proteger na chuva, então eu não posso sair. Está frio, tenho medo de pegar um resfriado, mas estou aqui contigo, não estou? Só não me peça para sorrir, já é demais. Infelizmente, enquanto você ri na chuva, eu choro na solidão.

Imagens Que Contam Histórias 20

Além de baseada nessa imagem, inspirada principalmente pela música "Bandolins" do Oswaldo Montenegro http://www.youtube.com/watch?v=VemQd1nZdnE


Naquela noite, o barulho da música me embalava. Meu corpo relaxado respirava a melodia, enquanto o fogo que crepitava na fogueira me aquecia. O vento trazia promessas, juntando-se às conversas animadas das pessoas à minha volta. Nada prendia minha atenção, nada era interessante o suficiente para tal. O fogo tremulou, a brisa nos avisou, o silêncio obedeceu, mas nada me prepararia para a cena seguinte. Meus olhos  embaçados, eu não conseguia divisar as cores que se balançavam em minha frente. Verde, rosa, azul, laranja, amarelo... Rodando, rodando e rodopiando, tirando-me o fôlego. E aqueles olhos... Chocolate derretido puxando-me para dentro das labaredas ardentes, tirando-me a vida, a força, o ar. Já não havia nada que eu pudesse fazer, já estava perdida. E os olhos, agora fechados, eram escondidos pelos cabelos castanhos que caíam em cachos. O busto subindo e descendo, ao som da música, os ombros indo e vindo, indo e vindo, puxando e empurrando, num doce e ilusório balançar. E ela dançava, os pés delicados tocando o chão empoeirado, uma correntinha em volta do tornozelo direito. A música era eterna, assim como sua dança que me prendia mais e mais a cada segundo. O corpo moreno clamando por ser tocado, beijado, profanado, observado. E outros gritavam, assobiavam, teciam elogios. Não, eles não eram merecedores dela. Não precisavam dela pra sobreviver. Mas eu... Eu gritava, gritos mudos agarrados na garganta, só querendo ser vista, notada. Sempre que ela se afastava, pés mal tocando o chão, meu corpo se convertia para frente, precisando dela. E aqueles olhos... Doces chocolates derretidos, derretendo minhas vontades naquele sorriso esboçado. E com aquele sorriso, eu sabia. Era minha. Ou era dela? Ou éramos uma? Já não sei, não consegui pensar. A melodia dando seus últimos toques, os rodopios cada vez mais lentos, o ar cada vez mais pesado, a temperatura mais quente... Nada mais fazia sentido. Só ela, suas cores iluminando meu céu, seu sorriso me libertando da vida, seus olhos me sentenciando à morte e sua presença prometendo-me uma segunda vida. Se a música parara? Se ela ainda dançava? Rodopiava, rodopiava, rodopiava, e eu já não mais respirava.

Imagens Que Contam Histórias 19


Você realmente não sabe o poder que tem sobre mim, sabe? 
Como me tem facilmente em suas mãos?
Não faz ideia de como a fantasio, faz?
Você se sente como uma garota estranha, esquisita, boba, simples, comum...
Aquela nerd que tem problemas no joelho, é baixinha demais, comum demais...
Certo?
Mas não lhe vejo como nenhuma dessas coisas, não...
De maneira alguma.
Pra mim, você é perfeitamente espetacular. 
Alta, magra. 

Imagens Que Contam Histórias 18


Os olhos me espreitavam. Seu corpo todo retesado, como um felino se preparando para o ataque. Abaixou os ombros, as mãos espalmadas no chão. Os cabelos negros caindo-lhe pelo corpo nu. Naquele momento, nada mais importava, nada mais eu enxergava. O quarto escuro e promissor, tão estranho quanto qualquer outro quarto de motel, mas naquela noite não parecia estranho. Naquela noite tudo era tão natural, como se fosse para ser. Quando meus olhos se conectaram aos dela, senti um sentimento queimar dentro do peito, subindo pela garganta, queimando, ardendo, mostrando-se mais vivo do que qualquer coisa. Eu era sua presa, e sempre seria. Eu era dela, e agora não havia mais dúvidas disso. Veio andando de quatro pelo tapete, no chão, com um sorriso malicioso nos lábios cheios e rosados. Parou perto das minhas pernas. Sentou-se. Começou a arranhar minha perna direita, beijou-a, mordiscou-a. Voltou a encarar meus olhos, e senti meu corpo todo estremecer, arrepiar-se. Sorriu de canto. Colocou a cabeça para trás, exibindo a sua linda coleira negra. Segurei na coleira com o dedo indicador, trazendo-a para mais perto de mim. Ainda entre minhas pernas, veio até o local desejado. Agarrou-se à mim, mordendo minha pele em brasa, sugando minha força vital, tomando para si o que já era dela. Apossou-se de mim. Saciou a sede que há tempos a enlouquecia. Sentia meu corpo estremecer, chachoalhar em orgasmos violentos, enquanto da minha boca saiam palavras desconexas. Olhei novamente para baixo, e aqueles olhos... Olharam-me, desafiando-me, instigando-me. Queriam saber se ela havia atingido seu objetivo. Sorriu, mordendo a parte inferior da minha coxa. Ela havia vencido. Eu já não mais respirava.

Café ou Chocolate?


Traga uma xícara de café, por favor.
O frio é intenso, não quer chá? 
Não gosto de chá. Quero café. Faz favor?
Mas está muito frio mesmo, senhorita. 
E o que me importa?

Imagens Que Contam Histórias 17


E pela primeira vez, olhei-a com os olhos do desejo. A sala estava escura, mas eu podia ver sua silhueta pela luz da lua que entrava pela janela. Os cabelos compridos caindo-lhe pelas costas nuas só me deixava mais excitada. As mãos escoradas na porta, de costas para mim, a voz rouca falando algo que eu não entendia. Tinha vontade de tocá-la, precisava disso. Sentir o seu corpo arrepiar-se ao toque dos meus dedos compridos e gelados, contrastando com sua pele quente como fogo. Virou o rosto para mim, seus olhos azuis brilharam na escuridão, eu podia enchergar o desejo estampado neles. Os lábios se abriram em um sorriso malicioso. Passou a língua nos lábios carnudos. Abriu as pernas, estendendo uma para frente e outra para trás. Mordi meu lábio inferior. Eu precisava daquela mulher. Precisava desesperadamente, não poderia mais aguentar. Lentamente ela aproximou-se de mim, debruçando-se sobre meu corpo, sem que me tocasse. Colocou as mãos no encosto da cadeira em que eu estava sentada, e começou a balançar o corpo naquela posição. Eu estava enlouquecendo! E ela sabia disso. Os olhos olharam dentro dos meus intensamente. E quando ela aproximou-se o suficiente para nossos lábios se tocarem...
Acordei, com uma ardência entre as pernas, e a urgência de conhecer aquela mulher.

Imagens Que Contam Histórias 16


Ainda estava no box, após o banho recém tomado. Queria aproveitar os últimos minutos naquele espaço quentinho, antes que o frio da noite e do seu quarto a invadissem, levando embora a lembrança daquele corpo.  Enconstou o dedo na janela úmida, fazendo desenhos e caminhos por entre as gotículas de água. A voz doce que sempe a acalmara, agora falava em um guincho de tristeza e ansiedade. Ela não voltaria. Não haveria mais banhos. Nem saídas ao cinema, barzinhos, danceterias. Último banho juntas. Última vez que o seu gozo escorrera pelas pernas, misturando-se à água, provocado pela dona daqueles olhos encatadores. Sua dona. Aquela dona segurava em seus cabelos com força, marcando-lhe a pele com mordidas. Sussurrando com a voz arrastada:

"Você é minha. Entendeu? Só minha e de mais ninguém. Não importa com quantas mulheres durma, nem com quantos homens saia, seu corpo está marcado pelos meus toques. As manchas desaparecem, mas a sensação de ser minha, ficará para sempre."

E ela nem mesmo ousava reclamar. Um gemido concordando, os olhos se fechando, e o desejo que aquilo realmente durasse para sempre. Sentiu frio. A outra abrira a porta, com a toalha em mãos, para se enxugar. Apagar os vestígios da mulher que amava do corpo. Apagar as lembranças, mas sem conseguir apagar as dores. Olhou para a janela novamente, os vidros fechados e embaçados. Desenhou um coração. Clichê. Duas iniciais. Imaturo. E com a mangueira do chuveiro, jogou água no vidro, lavando as marcas visíveis. 
Enquanto as invisíveis já começavam a doer dentro dela, antecipando a mágoa da despedida.

Imagens Que Contam Histórias 15


Explosão. Explosão de estrelas, de sentimentos, de sensações, as quais ela não podia se conter. Seu corpo contorcia de prazer, a cabeça inclinada para trás, os olhos bem fechados, as pernas abertas. Explosão. Fora de órbita... Quando se tocava, era um momento só dela, de mais ninguém. Momento, o qual ninguém ousava interromper. Ela ditava o ritmo, deslizando os dedos, apertando, massageando, descobrindo, se tocando. Imaginando. Sentindo. Querendo. Saciando, saciando essa vontade louca, essa necessidade de algo acontecendo em sua vida. Vida que andava mais parada do que nunca, e que nesses momentos de insanidade, transformava-se em tumulto. 
Boom! Boom! Boom! 
Ela podia ouvir o som, como fogos de artífico no ano novo, brilhando e explodindo lá no céu. Isso, céu. Ela jurava que podia voar, que voava, tal liberta se sentia. Sem amarras, sem foco, sem história, sem partida nem ida. Somente o meio. Somente o acontecimento. Sem despedidas, sem "me desculpe, não foi minha inteção". Sem ninguém chamando o táxi para ela ir as três da manhã. Sem bebidas que a tiravam do seu eixo, que a faziam esquecer. Não, somente ela. Seu corpo, seu tato, seus sentidos, estava fora de si. Sem pensar, sem raciocinar. Somente a loucura.
Boom! Boom! Boom! 
Ecoando em seus ouvidos, fazendo pressão. Respiração falha, coração batendo rápido, querendo sair do peito, precisando de ar. E de repente, sem chão. Sem ar, sem paredes, sem casa, sem corpo. 
Boom! Boom! Boom!
Era alma. Era desejo. Era sentido. Era tudo e era nada. 
Rodando sem órbita, rodando e rodando e rodando, e sorrindo e andando e cantando. Completa, incompleta, satisfeita, reduzida a pó. Cinzas. Que se reconstroem, como a Fênix. 
Boom! Boom! Boom!
Delicadamente ela caía, em partículas de estrelas, de gotas, de prazer, de nada, de tudo.

Imagens Que Contam Histórias 14


Soprou o ar, vendo a fumaça saindo dos seus lábios frios. Estava frio. O dia estava cinza ou era impressão dela? Abraçou-se, sentindo a mágoa e a pequena dor que a partida havia lhe deixado. Haviam partido, mais uma vez. Fechou os olhos, tranquila, mas por dentro, havia um mar, um oceano de incertezas, medos e receios, os quais a corroiam por dentro. Ela havia lhe deixado. Aquela que diria que nunca a deixaria. Podia ser coisa de adolescente, chorar por alguém que ia embora. Não, não havia feito de propósito, mas ela deixara o país. Ela, seu grande amor, iria morar longe por muito tempo. Não sabia ao certo quando iria voltar, por isso, achara melhor deixar tudo terminado, assim não causaria danos. Mais? Já estava cheia de buracos e remendos e costuras. Partidas... Sempre nos deixam assim, meio sem jeito, sem graça, sem nada. O dia, a noite estava cinza. As estrelas mal espalhavam seu brilho raro, a lua se escondia atrás das nuvens, e ela ali, parada na estação, brincando de assoprar o vento para criar aquela fumacinha. Riu. Lembrou-se, então, que sempre achara que isso era uma besteirada de criança, e agora, com o seu amor partido, jurou que poderia fazer fumacinha todas as noites se isso fizesse com que a outra voltasse mais rápido. O trem havia partido. As pessoas haviam partido. Ela, seu único e grande amor, havia partido. Ela assoprou novamente, mas a fumacinha já havia partido...

Imagens Que Contam Histórias 13


Seria ela lésbica? Não, não poderia ser. Isso era só... o quê? Vai ficar inventado desculpas agora? Ela só queria esquecer, não ter que decidir, não ter que pensar. Acendeu um cigarro e deu a primeira tragada, aquilo a relaxou. Deixou a fumaça sair, acalmando-a. Sorriu de canto, ainda tinha os seios expostos, os mesmos seios que à pouco estavam na boca da outra. Aliás, todo o seu corpo tinha estado em contato com o de outra mulher. Aliás, gozara várias vezes, sentira prazer, fora tocada como nunca antes. Mas então porque continuava tensa, achando que fizera algo de errado? Pelo amor de Deus, você não é mais uma menina! Era o que falava para si mesma. E ainda assim, sentia-se constragida. Nervosa, querendo sumir. Mundos tão diferentes, pessoas tão diferentes... Achava que iam apontá-la na rua sabendo que tinha transado com uma mulher. Nunca fora tão tola! Ninguém sabia de verdade. Não havia vestígios além do seu próprio medo. Tão diferentes e singulares, e ao mesmo tempo tão iguais e comuns ao resto da população! Garotas que gostam de garotas. Andam por aí, lhe olham, lhe abraçam, lhe desejam, lhe comem. No sigilo, como felinas que se aproximam da presa. E no fim do dia, carregam aquele sorriso sacana no rosto, depois de terem transado no banheiro feminino, saem como se nada tivesse acontecido, e seus maridos nada desconfiam. O cigarro estava chegando ao fim. Deu mais uma tragada, e aquele sorriso sacana apareceu-lhe no rosto.

Imagens Que Contam Histórias 12


Gostava de dizer que cada sarda presente em seu rosto era um ano a mais que ela tinha; adorava dizer que era o tanto de dinheiro que ganhava de natal; falava que era o tanto de namorados que tivera, e o tanto que perdera também. gostava de dizer que eram o reflexo das estrelas que brilhavam alto no céu. Envaidecia-se quando alguém lhe dizia algo agradável sobre as sardas; enraivecia quando zombavam delas. Contava mil e uma histórias de como as conseguiu, dependendo de quem conversava. Mas a sua favorita, era dizer que era o tanto de lágrimas que ela chorara por alguém. Nunca dizia o nome dessa pessoa. No fundo no fundo, suas sardas não eram países, nem estrelas, nem lágrimas, nem anos, nem luz, nem mancha, nem nada. Eram apenas o tanto de esperança que ainda residia dentro dela, que a fazia levantar-se toda manhã. Eram sua força. Ficavam logo abaixo dos olhos, que brilhavam ante à luz de mais um novo dia. Eram a sua válvula de escape ante as horridades que passara em casa, pai bêbado e mãe drogada, geralmente ela virava saco de pancada. 



Imagens Que Contam Histórias 11


Olhava-me com aqueles olhos quase cinzas, bravos, quase bufando. O que eu poderia dizer? Enquanto abotoava a minha camisa, dizia um "Você já sabia que seria assim..." para ouví-la bufar novamente. A cama ainda cheirava a sexo do início da manhã, e ela não precisava se arrumar, já que era a sua casa. Dei um sorriso triste, colocando a calça jeans e me debruçando sobre ela. Dei um beijo estalado em sua bochecha, depois um beijo rápido nos lábos e umas mordidinhas no braço. "Não me culpe, ok? Sabe que não posso ficar... Não posso prometer, não posso. Não fique chateada comigo, juro que logo logo as coisas se acertam." Ela balançou a cabeça, sem concordar muito comigo, mas não queria brigar. Forçou um sorriso. Acabei de me vestir, e antes que eu pudesse sair, ela me disse: "Eu amo você, não se esqueça disso, Milla." E eu retribuí com um sorriso, seguido de "Não esqueço. Estarei de volta na madrugada.". Mandei-lhe beijos e saí. Minha esposa me esperava em casa, para que eu levasse nossa filha à escola e depois fosse para o trabalho. "Mammy!" segurei minha pequena nos braços, quando ela me chamou, dando um beijo na minha esposa, e o cheiro do seu cabelo me fez lembrar-me dos cachos negros daquela morena que eu tanto amava.

Imagens Que Contam Histórias 10


Ela tinha mais de 30. Disse-me logo quando me conheceu. Como resistir? Como parar essa insana vontade dentro do peito, de possuir aquela mulher? Eu sabia que ela representava perigo, mas ainda assim, fui atrás. Tudo nela era diferente de qualquer outra garota que eu já conhecera, também, ela não era garota, era mulher. Emanava sensualidade do seu ser, do seu corpo. Os traços fortes, e o poder de quem sabia o que queria, conquistaram meu coração de primeira. Seus olhos... Olhavam-me, devorando me completamente, arrasando com qualquer barreira que eu tentasse impor. Sua boca me chamava, e o seu ombro descoberto pela bata me provocava, pronto para que eu mordesse de leve. Eu só queria afastar seus lindos cabelos negros e enterrar meus lábios na pele quente e sedutora do seu pescoço. Ela sabia ser sensual sem ser vulgar. Não precisava de saias curtas ou decotes exagerados. Com seus olhos... Ela me despia, devorava, despudoradamente. Com seus olhos, tentava-me. Com seus olhos, desviava. Com seus olhos, fechando vagarosamente e depois abrindo, juntamente com um sorriso leve, diziam-me: 
Até algum dia.

E quando eu olhava, ela sumira, como uma brisa, uma leve, doce e inebriante brisa.



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