Anne & Anna - O café


O Café

Ela estava ali. Ela sempre estivera ali. Sentada sozinha em sua mesa preferida na Starbucks, aquelas dentro da cafeteria, em um banco confortável, tomando seu cappuccino e comendo um lanche de peito de peru. Seus olhos sempre fitando o livro que sempre trazia consigo. Não interagia com as outras pessoas, gostava da quietude e da tranquilidade. Talvez por isso eu nunca tivesse reparado nela; meus olhos sempre buscavam tantas garotas que passavam a minha frente, todas tão diferentes, falantes, extravagantes. Escrevia histórias sobre elas, imaginava suas vidas, queria conhecê-las e entendê-las. Eu buscava uma história de amor, mas todas me davam pequenas crônicas em conta-gotas. Nunca me ocorreu simplesmente aquietar-me e sentir as vibrações em minha volta. Então, em um dia qualquer, após outra decepção amorosa, sentei-me calada na cafeteria. Sentia-me solitária, amarga e triste, assim como os tantos cafés que eu adorava tomar. Meu olhar vagava pelo ambiente, até pousarem sobre a garota de cabelos pretos e lisos sentada no canto do lugar. Ela olhou-me, sorriu, e voltou a sua leitura. Rapidamente interessei-me por ela. Geralmente eu demorava séculos para me aproximar, apenas observando minhas pretendentes, mas dessa vez resolvi tentar a sorte. Caminhei calmamente até ela e me apresentei. 

Dia das Namoradas






Esses dias o frio está quase insuportável em São Paulo. Acostumada ao calor, tenho sofrido com as baixas temperaturas. Ultimamente, tudo o que eu quero são seus braços pra me aquecer, seu abraço, seu corpo quente junto ao meu. Hoje, justamente hoje, desejei que pudesse estar aqui ao meu lado. Hoje é um dia especial. Durante muito tempo passei esse dia solitária, e jamais imaginei que tão logo passaria esse dia acompanhada. Não lamento que não possa estar aqui comigo hoje, pois a tristeza não cabe mais em meu peito. Ao invés disso, crio planos em minha mente, criativa como sou, para passar essa data contigo, ainda que em outro dia do calendário. Mesmo que eu não possa realizar todas as loucuras que penso, é gostoso pensar nelas. Não nego que pensei em uma programação mais tradicional... Um jantar em um restaurante japonês, rosas, um presente... Mas se me perguntasse o que eu realmente desejaria fazer no dia de hoje, eu poderia facilmente lhe dizer: andar de mãos dadas pela Paulista, ouvindo casualmente esses artistas que estão sempre tocando por ali, e te fazer rodopiar, dançando no meio da calçada. Ou então, se tão frio não estivesse, ir observar a cidade, ver o pôr do sol e ficar até o anoitecer. Pensei também em te levar pra dançar... Ainda que não seja tão romântico à primeira vista, quem resiste a ouvir uma música da Kylie olhando dentro dos olhos da moça mais bonita? Dançar ao som de Cher como se não houvesse amanhã, partilhando a euforia e a felicidade. E se dinheiro tivéssemos, pegar um ônibus com destino desconhecido, e partir para uma aventura, nem que fosse em um chalé no meio do nada. E olha que não sou chegada a esse tipo de programa! Ou simplesmente fazer uma maratona de séries, ou assistir a filmes, com vinho, foundie ou chocolate quente. Posso falar a verdade? Se eu parar para pensar, não existe um programa perfeito para fazermos, pois cada vez que nos vemos é um momento perfeito. Cada café que tomamos, cada momento juntinhas assistindo a filmes ou séries, cada vez que saímos para comer, a cada passeio interessante e diferente que fazemos... A cada manhã ao eu lado me dando bom dia, a cada noite que se fecha com um beijo de boa noite... São momentos únicos e especiais. E eu poderia escolher qualquer um deles, contanto que fosse com você. Então hoje, nesse Dia das Namoradas, eu só desejo poder estar logo contigo, curtindo mais um momento especial entre nós. Desejo sentir de novo aquele sentimento tão forte quando nos beijamos a cada reencontro, desejo sentir seu abraço e o modo como me olha, tão apaixonado. Hoje, apesar do frio que sinto me congelar, já não sinto mais frio aqui dentro, apenas um calor que me aquece e me alegra. Um aconchego, uma felicidade. Já não há mais espaço pra solidão, e ainda que precisemos lidar com essa distância, ela não será eterna, já tivemos prova disso. Então, com a licença poética para mudar a música só um pouquinho, eu canto assim, baixinho, na esperança de que meus desejos sejam realizados:

“Eu sinto a falta de você, me sinto só, e aí, quando é que você volta?”

Feliz Dia das Namoradas, meu amor!

Escrita Criativa - Situação Ininteligível




Tema: uma situação ininteligível, ou seja, incompreensível, de difícil entendimento, para o personagem. 
        
  Sábado à tarde, sentada na varanda, toda enrolada no cobertor, em pleno frio de São Paulo, tomando um café, eu lia meu livro, já nas páginas finais, quando tocam a campainha. Merda! Bem no meio do penúltimo capítulo! Levantei a cabeça, pronta pra xingar o retardado que tinha descansado o dedo ali, mas fiquei sem fala, com os olhos arregalados, e o coração pulando no peito. De cabelos pretos, botas, óculos escuros, e uma voz rouca inconfundível, estava a Cher, em carne e osso, parada no meu portão. “Garota, abra essa merda dessa porta!” foi o que eu entendi do seu inglês. Levantei de um pulo, e comecei a dar gritinhos de alegria e êxtase, quando de repente, dei um grito que rasgou minha garganta. Uma garota passou correndo, atirou na Cher, que se agarrou no portão de grade. Eu fiquei branca, apavorada, sem conseguir sair do lugar, completamente horrorizada. Minha cabeça estava entrando em parafuso, sem conseguir processar o que estava acontecendo. A Cher, meu ídolo, agarrada no portão, toda ensanguentada, quase morrendo, gritando, e a menina ruiva ao seu lado, com a arma na mão, rindo insanamente e dando pequenos pulos. Eu queria salvá-la, queria gritar, mas não conseguia me mexer. De repente, a louca olhou pra mim, e apontou a arma, deu uma risada escandalosa. A primeira coisa que eu pensei, antes de me esconder embaixo da mesa, desviando da primeira bala, foi: fodeu! Um barulho de sirene tocando ao longe fez uma pontinha de esperança se acender, mas seriam eles rápidos o suficiente pra nos salvar?

Palavras


Nunca me faltaram palavras para descrever sentimentos. Sempre tão cheia deles que às vezes chegava a transbordar. Ultimamente ando numa secura de palavras digna do Saara. Tenho andado preocupada, sem entender direito o que acontece com meus dedos, que já não conseguem apertar as teclas certas e juntar as ideias para um bom texto. Eu sempre usei as palavras como armas para atingir as pessoas que estavam longe de mim. Sempre precisei delas para tocar as pessoas que estavam a quilômetros, para fazer o papel de um abraço apertado, de um ombro para chorar, de uma forma de alegrar. Eu sempre vivi pelas palavras e pelos textos que transbordavam meus sentimentos. Só então me dou conta de que a resposta está bem a minha frente. Abro os olhos e encontro os seus, tão perto, tão negros e pequenos, com uma leve linha curva. Essa é a diferença. Não preciso mais me amparar nas palavras, pois estou vivendo os momentos. Não preciso lhe dizer como sinto por um pedaço de papel ou uma tela fria quando simplesmente posso olhar em teus olhos, com o rosto bem pertinho do seu, segurando firmemente em sua mão, encarando seu sorriso que me transmite felicidade. Meu corpo fala por mim, minhas ações falam por mim. Mas não pense que essa escritora irá se calar, isso jamais acontecerá. Sou feita de palavras, e se não as libero, me sufoco. Finalmente fui agraciada com um pedido que fiz há anos, pelo qual implorei, briguei e exigi. Por muito tempo andei sozinha, lutei sozinha, tentei sozinha. Hoje ando acompanhada por alguém que tem os mesmos desejos, vontades e sonhos que eu. Meu peito explode em saudade todas as vezes em que precisamos nos despedir, e espera ansioso pelo dia em que nos veremos de novo. Com você, todos os meus dias são feitos de sol e calmaria. Não tenho medo da vida, muito pelo contrário, anseio por ela. Para vivê-la. Perdoe-me se não me expresso sempre através de palavras, mas tenha a certeza de que meus olhos e meus lábios sempre lhe mostrarão meus sentimentos mais sinceros e intensos por você. 

Escrita Criativa - Diálogo

Tema: o personagem se revela pelo diálogo


Diante dos portões da faculdade três amigos conversavam. Fred era o mais alto e o mais afetado, porém, o mais educado. Estava se segurando para não dizer boas verdades a João, que por ser o único hetero no grupo, muitas vezes tinha uma opinião preconceituosa em alguns assuntos.

— Cara, é o que eu to dizendo, não há necessidade de demonstrar tanto, saca? – João reafirmou seu ponto.

— E não há necessidade de demonstrar tanto sua heterossexualidade, mana. – Fred respondeu, cruzando os braços em frente ao peito. — Sabe que odeio quando você fica cheio desses preconceitos.

— Não é preconceito... – João suspirou, coçando a cabeça. – Só acho desnecessário.

— Queridas, chega desse papo chato? – interveio Paulo, colocando a mão na cintura afetadamente, só pra provocar. — Vocês vão colar lá na Augusta comigo e com o Gabi hoje? Parece que vai ter um show bapho de montação por lá.

— Sei não... Só se minha namorada for...

— Ah não bicha! – respondeu Fred, bufando e revirando os olhos. — Lá só dá bicha pão com ovo. É uó!

— Mas não vamos pelo povão, bee. Tô querendo ir por causa dos shows! Tem muito bate cabelo! – Paulo retrucou, tentando convencer o amigo.

— Nem vem, aquelas drags são um desastre! – levantou uma sobrancelha, em tom irônico. — São tão bem maquiadas que podiam ser contratadas pro circo.

— Como você é chato! – ele deu de ombros, virando-se para João, que prestava atenção no celular. — Vamos comigo, bee! Please!


— Boa sorte pra vocês. – Fred sorriu. — Vou indo. Cuidado para não serem roubadas... – riu maldoso acenando para eles, enquanto saía rebolando afetadamente, só para irritar João e seu preconceito. 
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