Poesia - Branca



Em um dia qualquer, esquina dobrada,
É o seu rosto que me deixa assustada. 
Branca feito um papel, boca feito porcelana,
O coração batendo forte na esperança insana.

Será que você me viu? Será que percebeu?
Meus olhos vidrados em seu vestido branco,
Não conseguem se fechar com medo de que
Seja só mais uma miragem, sonhando acordada.

Treino umas palavras na ponta da língua,
Mas você estaria interessada no que tenho a dizer?
Ignoraria minhas tentativas de me fazer ver?
Certeza que não me daria um sorriso sequer. 

Não posso culpar o destino quando fui eu que pedi,
Para ter certeza de não estar louca, te ver eu quis.
Agora estou sempre andando com cuidado,
Com medo de ser assombrada pelo meu passado.


Respira. De novo. Respira.


Respira. Ok, hora de começar. Ou recomeçar. Soltando as amarras que me prendem, seguram e aprisionam, finalmente consigo respirar. Pensar com clareza. Durante tanto tempo fui aquela que ajuda os mais necessitados. Durante tanto tempo fui sua rocha, sua âncora, sua certeza de um porto seguro. Não importava quando, eu estava aqui sempre que precisavam, mas isso tinha um preço. A minha liberdade. De bom grado eu doava meu ser àqueles que eu amava e queria cuidar, sem pensar em mim mesma, nas minhas próprias necessidades. Sou a melhor amiga, a melhor amante, a melhor ouvinte, a melhor cuidadora e a que sempre lhe trará um bom conselho seguido de um bom afago. Obviamente, quem gostaria de perder alguém assim? O fato é que, de pessoa para pessoa, de ajuda em ajuda, o tempo vai nos desgastando, retirando pedacinhos de quem somos para os deixar com aqueles que precisam, e isso nos cansa. É difícil. Mas o tempo... O tempo é maravilhoso. Existe um tempo certo para cada pessoa e para cada caminho. Quando se excede e se tenta estendê-lo, insistindo em segurar uma corda que lhe machuca as mãos, você apenas prolonga a dor da despedida. É chegado o fim, e é necessário. Precisamos seguir caminhos diferentes, querida. Assim é a vida. Não chores, não amaldiçõe, não se culpe. Findou-se o nosso tempo, mas não as nossas lembranças. E então, finalmente sentindo a brisa renovando nossas energias, o sentimento de liberdade se espalhando por nosso corpo e mente, conseguimos finalmente respirar ar puro. E a vida segue o seu curso. Conhecemos novas pessoas, nos abrimos para novas experiências e vivências. Estamos prontas. E tudo acontece de forma rápida, como se apenas estivesse esperando aquele livro terminar para começar o próximo, afinal, já estava na hora. Não que não teremos novos trabalhos para essas novas pessoas que se achegam, mas com certeza, após tanto tempo dedicado àqueles que mais necessitavam de nós, poderemos enfim ajudar a nós mesmas. Viver algo leve enquanto vamos aprendendo e ensinando ao mesmo tempo. E, principalmente, crescendo e evoluindo.  




Anne & Anna - O café


O Café

Ela estava ali. Ela sempre estivera ali. Sentada sozinha em sua mesa preferida na Starbucks, aquelas dentro da cafeteria, em um banco confortável, tomando seu cappuccino e comendo um lanche de peito de peru. Seus olhos sempre fitando o livro que sempre trazia consigo. Não interagia com as outras pessoas, gostava da quietude e da tranquilidade. Talvez por isso eu nunca tivesse reparado nela; meus olhos sempre buscavam tantas garotas que passavam a minha frente, todas tão diferentes, falantes, extravagantes. Escrevia histórias sobre elas, imaginava suas vidas, queria conhecê-las e entendê-las. Eu buscava uma história de amor, mas todas me davam pequenas crônicas em conta-gotas. Nunca me ocorreu simplesmente aquietar-me e sentir as vibrações em minha volta. Então, em um dia qualquer, após outra decepção amorosa, sentei-me calada na cafeteria. Sentia-me solitária, amarga e triste, assim como os tantos cafés que eu adorava tomar. Meu olhar vagava pelo ambiente, até pousarem sobre a garota de cabelos pretos e lisos sentada no canto do lugar. Ela olhou-me, sorriu, e voltou a sua leitura. Rapidamente interessei-me por ela. Geralmente eu demorava séculos para me aproximar, apenas observando minhas pretendentes, mas dessa vez resolvi tentar a sorte. Caminhei calmamente até ela e me apresentei. 

Dia das Namoradas






Esses dias o frio está quase insuportável em São Paulo. Acostumada ao calor, tenho sofrido com as baixas temperaturas. Ultimamente, tudo o que eu quero são seus braços pra me aquecer, seu abraço, seu corpo quente junto ao meu. Hoje, justamente hoje, desejei que pudesse estar aqui ao meu lado. Hoje é um dia especial. Durante muito tempo passei esse dia solitária, e jamais imaginei que tão logo passaria esse dia acompanhada. Não lamento que não possa estar aqui comigo hoje, pois a tristeza não cabe mais em meu peito. Ao invés disso, crio planos em minha mente, criativa como sou, para passar essa data contigo, ainda que em outro dia do calendário. Mesmo que eu não possa realizar todas as loucuras que penso, é gostoso pensar nelas. Não nego que pensei em uma programação mais tradicional... Um jantar em um restaurante japonês, rosas, um presente... Mas se me perguntasse o que eu realmente desejaria fazer no dia de hoje, eu poderia facilmente lhe dizer: andar de mãos dadas pela Paulista, ouvindo casualmente esses artistas que estão sempre tocando por ali, e te fazer rodopiar, dançando no meio da calçada. Ou então, se tão frio não estivesse, ir observar a cidade, ver o pôr do sol e ficar até o anoitecer. Pensei também em te levar pra dançar... Ainda que não seja tão romântico à primeira vista, quem resiste a ouvir uma música da Kylie olhando dentro dos olhos da moça mais bonita? Dançar ao som de Cher como se não houvesse amanhã, partilhando a euforia e a felicidade. E se dinheiro tivéssemos, pegar um ônibus com destino desconhecido, e partir para uma aventura, nem que fosse em um chalé no meio do nada. E olha que não sou chegada a esse tipo de programa! Ou simplesmente fazer uma maratona de séries, ou assistir a filmes, com vinho, foundie ou chocolate quente. Posso falar a verdade? Se eu parar para pensar, não existe um programa perfeito para fazermos, pois cada vez que nos vemos é um momento perfeito. Cada café que tomamos, cada momento juntinhas assistindo a filmes ou séries, cada vez que saímos para comer, a cada passeio interessante e diferente que fazemos... A cada manhã ao eu lado me dando bom dia, a cada noite que se fecha com um beijo de boa noite... São momentos únicos e especiais. E eu poderia escolher qualquer um deles, contanto que fosse com você. Então hoje, nesse Dia das Namoradas, eu só desejo poder estar logo contigo, curtindo mais um momento especial entre nós. Desejo sentir de novo aquele sentimento tão forte quando nos beijamos a cada reencontro, desejo sentir seu abraço e o modo como me olha, tão apaixonado. Hoje, apesar do frio que sinto me congelar, já não sinto mais frio aqui dentro, apenas um calor que me aquece e me alegra. Um aconchego, uma felicidade. Já não há mais espaço pra solidão, e ainda que precisemos lidar com essa distância, ela não será eterna, já tivemos prova disso. Então, com a licença poética para mudar a música só um pouquinho, eu canto assim, baixinho, na esperança de que meus desejos sejam realizados:

“Eu sinto a falta de você, me sinto só, e aí, quando é que você volta?”

Feliz Dia das Namoradas, meu amor!

Escrita Criativa - Situação Ininteligível




Tema: uma situação ininteligível, ou seja, incompreensível, de difícil entendimento, para o personagem. 
        
  Sábado à tarde, sentada na varanda, toda enrolada no cobertor, em pleno frio de São Paulo, tomando um café, eu lia meu livro, já nas páginas finais, quando tocam a campainha. Merda! Bem no meio do penúltimo capítulo! Levantei a cabeça, pronta pra xingar o retardado que tinha descansado o dedo ali, mas fiquei sem fala, com os olhos arregalados, e o coração pulando no peito. De cabelos pretos, botas, óculos escuros, e uma voz rouca inconfundível, estava a Cher, em carne e osso, parada no meu portão. “Garota, abra essa merda dessa porta!” foi o que eu entendi do seu inglês. Levantei de um pulo, e comecei a dar gritinhos de alegria e êxtase, quando de repente, dei um grito que rasgou minha garganta. Uma garota passou correndo, atirou na Cher, que se agarrou no portão de grade. Eu fiquei branca, apavorada, sem conseguir sair do lugar, completamente horrorizada. Minha cabeça estava entrando em parafuso, sem conseguir processar o que estava acontecendo. A Cher, meu ídolo, agarrada no portão, toda ensanguentada, quase morrendo, gritando, e a menina ruiva ao seu lado, com a arma na mão, rindo insanamente e dando pequenos pulos. Eu queria salvá-la, queria gritar, mas não conseguia me mexer. De repente, a louca olhou pra mim, e apontou a arma, deu uma risada escandalosa. A primeira coisa que eu pensei, antes de me esconder embaixo da mesa, desviando da primeira bala, foi: fodeu! Um barulho de sirene tocando ao longe fez uma pontinha de esperança se acender, mas seriam eles rápidos o suficiente pra nos salvar?
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