Escrita Criativa - Situação Ininteligível




Tema: uma situação ininteligível, ou seja, incompreensível, de difícil entendimento, para o personagem. 
        
  Sábado à tarde, sentada na varanda, toda enrolada no cobertor, em pleno frio de São Paulo, tomando um café, eu lia meu livro, já nas páginas finais, quando tocam a campainha. Merda! Bem no meio do penúltimo capítulo! Levantei a cabeça, pronta pra xingar o retardado que tinha descansado o dedo ali, mas fiquei sem fala, com os olhos arregalados, e o coração pulando no peito. De cabelos pretos, botas, óculos escuros, e uma voz rouca inconfundível, estava a Cher, em carne e osso, parada no meu portão. “Garota, abra essa merda dessa porta!” foi o que eu entendi do seu inglês. Levantei de um pulo, e comecei a dar gritinhos de alegria e êxtase, quando de repente, dei um grito que rasgou minha garganta. Uma garota passou correndo, atirou na Cher, que se agarrou no portão de grade. Eu fiquei branca, apavorada, sem conseguir sair do lugar, completamente horrorizada. Minha cabeça estava entrando em parafuso, sem conseguir processar o que estava acontecendo. A Cher, meu ídolo, agarrada no portão, toda ensanguentada, quase morrendo, gritando, e a menina ruiva ao seu lado, com a arma na mão, rindo insanamente e dando pequenos pulos. Eu queria salvá-la, queria gritar, mas não conseguia me mexer. De repente, a louca olhou pra mim, e apontou a arma, deu uma risada escandalosa. A primeira coisa que eu pensei, antes de me esconder embaixo da mesa, desviando da primeira bala, foi: fodeu! Um barulho de sirene tocando ao longe fez uma pontinha de esperança se acender, mas seriam eles rápidos o suficiente pra nos salvar?

Palavras


Nunca me faltaram palavras para descrever sentimentos. Sempre tão cheia deles que às vezes chegava a transbordar. Ultimamente ando numa secura de palavras digna do Saara. Tenho andado preocupada, sem entender direito o que acontece com meus dedos, que já não conseguem apertar as teclas certas e juntar as ideias para um bom texto. Eu sempre usei as palavras como armas para atingir as pessoas que estavam longe de mim. Sempre precisei delas para tocar as pessoas que estavam a quilômetros, para fazer o papel de um abraço apertado, de um ombro para chorar, de uma forma de alegrar. Eu sempre vivi pelas palavras e pelos textos que transbordavam meus sentimentos. Só então me dou conta de que a resposta está bem a minha frente. Abro os olhos e encontro os seus, tão perto, tão negros e pequenos, com uma leve linha curva. Essa é a diferença. Não preciso mais me amparar nas palavras, pois estou vivendo os momentos. Não preciso lhe dizer como sinto por um pedaço de papel ou uma tela fria quando simplesmente posso olhar em teus olhos, com o rosto bem pertinho do seu, segurando firmemente em sua mão, encarando seu sorriso que me transmite felicidade. Meu corpo fala por mim, minhas ações falam por mim. Mas não pense que essa escritora irá se calar, isso jamais acontecerá. Sou feita de palavras, e se não as libero, me sufoco. Finalmente fui agraciada com um pedido que fiz há anos, pelo qual implorei, briguei e exigi. Por muito tempo andei sozinha, lutei sozinha, tentei sozinha. Hoje ando acompanhada por alguém que tem os mesmos desejos, vontades e sonhos que eu. Meu peito explode em saudade todas as vezes em que precisamos nos despedir, e espera ansioso pelo dia em que nos veremos de novo. Com você, todos os meus dias são feitos de sol e calmaria. Não tenho medo da vida, muito pelo contrário, anseio por ela. Para vivê-la. Perdoe-me se não me expresso sempre através de palavras, mas tenha a certeza de que meus olhos e meus lábios sempre lhe mostrarão meus sentimentos mais sinceros e intensos por você. 

Escrita Criativa - Diálogo

Tema: o personagem se revela pelo diálogo


Diante dos portões da faculdade três amigos conversavam. Fred era o mais alto e o mais afetado, porém, o mais educado. Estava se segurando para não dizer boas verdades a João, que por ser o único hetero no grupo, muitas vezes tinha uma opinião preconceituosa em alguns assuntos.

— Cara, é o que eu to dizendo, não há necessidade de demonstrar tanto, saca? – João reafirmou seu ponto.

— E não há necessidade de demonstrar tanto sua heterossexualidade, mana. – Fred respondeu, cruzando os braços em frente ao peito. — Sabe que odeio quando você fica cheio desses preconceitos.

— Não é preconceito... – João suspirou, coçando a cabeça. – Só acho desnecessário.

— Queridas, chega desse papo chato? – interveio Paulo, colocando a mão na cintura afetadamente, só pra provocar. — Vocês vão colar lá na Augusta comigo e com o Gabi hoje? Parece que vai ter um show bapho de montação por lá.

— Sei não... Só se minha namorada for...

— Ah não bicha! – respondeu Fred, bufando e revirando os olhos. — Lá só dá bicha pão com ovo. É uó!

— Mas não vamos pelo povão, bee. Tô querendo ir por causa dos shows! Tem muito bate cabelo! – Paulo retrucou, tentando convencer o amigo.

— Nem vem, aquelas drags são um desastre! – levantou uma sobrancelha, em tom irônico. — São tão bem maquiadas que podiam ser contratadas pro circo.

— Como você é chato! – ele deu de ombros, virando-se para João, que prestava atenção no celular. — Vamos comigo, bee! Please!


— Boa sorte pra vocês. – Fred sorriu. — Vou indo. Cuidado para não serem roubadas... – riu maldoso acenando para eles, enquanto saía rebolando afetadamente, só para irritar João e seu preconceito. 

Escrita Criativa - Prazer extremo




Era a primeira vez em que meu corpo entrava em contato com seu. Sua pele ardia em brasa de encontro a minha. No escuro do quarto não podíamos ver, por isso nossos sentidos estavam mais apurados. Beijei seus lábios novamente, mordiscando seu lábio inferior, e uma vontade me veio à mente. Sem consultá-la, dei pequenas lambidas indo do queixo até o lábio cheio, e senti-a estremecer. Queria enlouquecê-la, mas ela era uma boa aluna e adorava mostrar que havia aprendido bem a lição. Sua língua lambeu do meio queixo até o meu lábio superior, e aquela sensação fez meu corpo se arrepiar inteiro. Minha respiração estava falha, meu coração palpitando no peito. Percebendo que eu adorara, ela fez novamente, mas dessa vez seus dedos se encostaram em meu sexo, constatando como me deixara molhada. “Quero sentir seu gosto, amor...” Ela sussurrou eu senti pulsar em sua mão, apertando-a entre minhas coxas. Não consegui lhe responder. Virou-me de costas, descendo o corpo lentamente pelo meu, os cabelos macios acariciando minha barriga. Encaixou-se entre minhas pernas, mordiscando minhas coxas, dando pequenos beijos, fazendo-me tremer de desejo. A ansiedade me corroia, e quando finalmente senti sua boca em meu sexo, comecei a gemer baixinho. Eu não possuía mais controle sobre meu corpo, que se contorcia nos lençóis, estremecendo a cada lambida. Quanto mais eu gemia, mais intenso se tornava, e eu já não mais pensava naquele momento. Senti meu corpo inteiro tremer, enquanto eu chegava ao ápice, segurando em seus cabelos e gemendo mais alto, sentindo o primeiro orgasmo. Quando meu corpo se aquietou, relaxado e suado, senti-a junto a mim, seus lábios selando os meus, com o meu gosto neles, enquanto seus dedos e sua mão se entrelaçavam na minha. 

Poesia - Beijo


Beijo

Tem gente que dá selinho,
Tem gente que dá beijinho,
Tem gente que dá carinho.

Tem gente que dá beijão,
Com direito à linguão,
No meio da multidão.

E tem a gente.

Que inventa beijo o tempo todo,
Se lambuza e se demora,
Ora beijando bem devagarinho,
Ora com pressa e urgência.
Beijos demorados,
Ou um simples encostar de lábios.

Que saudade do seu beijo! 
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