Conto - Sem Medo de Viver




N/A: Conto vencedor em 3º lugar na Categoria Conto Adulto do Prêmio Literário Mario Sérgio Cortella da 16ª Feira Nacional do Livro de Ribeirao Preto (2016) 
Sem Medo de Viver

            O vermelho cobre meus lábios uma vez mais. Como diria meu filho do meio Ricardo, eu não perco a chance de chamar a atenção. Um riso irônico vem aos meus lábios. Claro! Pois foi isso que eu quis durante minha vida inteira: chamar a atenção. Penteio os cabelos, agora vermelhos como fogo, deixando-os soltos e com uma leve ondulação. Passo lentamente os dedos enrugados pelos desenhos impressos em minha pele, enquanto um sorriso triste borra meus lábios rubros, relembrando-me do significado de cada um deles. Meus dedos contornam a pequena borboleta tatuada em meu braço esquerdo, enquanto meus lábios tremem. Lembro-me da reação indignada de Ricardo ao saber da tatuagem, apesar de eu lhe explicar que borboletas são símbolo da transformação e da beleza, assim como minha mãe o era.

Desde pequena eu sempre tive que ajudar em casa, e foi dessa forma que ensinei meus três filhos. Embora o mais velho sempre fizesse o trabalho com muito esmero, o mais novo sempre se atrapalhava. Lembro-me do dia em que Gilberto, querendo ser tão importante como os irmãos, fez-me uma surpresa. Lecionando o dia inteiro, eu chegava cansada do trabalho. O pequeno abriu a torneira para encher a banheira de água quente, mas logo se distraiu com alguma bobagem. Quando cheguei em casa, eu não sabia se ria ou se chorava com a cena que presenciei: em pé no banheiro, completamente encharcado, com todas as minhas toalhas brancas ensopadas no chão, Gilberto abriu um sorriso sincero, dizendo-me: “Olha mãe! Pra você!” 

É chegada a hora da viagem. As bagagens já estão prontas, e são muitas. Às vezes é difícil suportar o peso delas, tão ricas em detalhes. Tudo bem, eu aguento, consigo fazer isso sozinha, assim como sempre fiz tudo sozinha, e orgulho-me disso. Criticam-me por negar a ajuda, mas como fazê-los entender como me sinto uma inválida se não posso cuidar da minha própria casa? Como é humilhante depender dos outros para tudo e qualquer coisa?

            Enquanto espero minha neta vir me buscar, relembro-me de como era rebelde em sua adolescência. Bia achava-se a dona do mundo, como se fosse a única certa e soubesse todas as respostas. Exatamente como todo jovem pensa saber. “Vó, a senhora é irada!” a garota de quinze anos e cabelos cacheados me disse uma vez, fazendo-me rir. Toda a cumplicidade que me faltou com seu pai, era com ela que eu tinha. Confidenciava-me suas notas baixas na escola, suas paixões mais secretas, e suas vontades. Sempre admirei esse espírito aventureiro dos jovens. Nasci em uma época em que nada era permitido, especialmente se você fosse uma mulher, mas isso nunca me impediu de fazer o que eu quisesse. “A senhora vai se machucar! Cheia de problemas na coluna e ainda vai dormir em barraca?” deixei Ricardo esbravejando suas preocupações e adentrei o mato junto com Bia. Infelizmente ele estava certo, fato que nunca lhe contei, mas valeu a pena ao ver a felicidade da menina com aquela viagem. 

            “Está pronta?” uma moça alta parada à minha porta me brinda com um sorriso afável. Por um momento busco em minha memória aquele rosto... Reconheço de algum lugar... Mas não me lembro de onde. Seria alguma de minhas alunas? Fazia tanto tempo que eu não lecionava... Como poderiam saber onde eu morava? “Vó!!! A senhora está pronta?” Bia me olha preocupada, oferecendo o braço para me ajudar a descer os degraus. Um sorriso instantâneo atravessa meu rosto e, com um brilho no olhar, respondo com convicção: “Estou pronta”. Infelizmente às vezes a memória me falha, e tenho alguns apagões que não sei explicar. Dentro do carro, observando o belo fim de tarde, oculto uma lágrima. 

            Recordo-me do dia em que o meu mais velho formou-se na faculdade de Arquitetura. Senti-me tão orgulhosa! A formatura foi tão linda... Ao final da festa, eu estava encarregada de levá-lo para casa de carro, mas ao invés disso, troquei o caminho e peguei uma estrada. Sérgio, sempre preocupado, achando que eu não estava em meu juízo perfeito, começou a brigar comigo, pedindo-me para voltar.
 
Eu ri, contente, mandando que sossegasse e aproveitasse. Era meu presente de formatura. Conversamos durante a noite toda, e amanhecemos na cidade vizinha. Foi a última vez que fizemos algo parecido, antes que ele precisasse mudar de cidade para exercer a profissão. Ele sempre vinha me visitar, muito prestativo a me ajudar em tudo o que eu precisasse, mas com o passar do tempo, e por ser tão ocupado, víamo-nos apenas nas ocasiões mais especiais, até ele ser chamado para viajar pela companhia em que trabalhava no exterior. Eu sentia falta dos seus conselhos e da sua companhia.  

Respiro fundo antes de entrar, com a cabeça erguida, totalmente preparada para as críticas sobre minhas escolhas, afinal, elas sempre vinham, mais cedo ou mais tarde. Apenas mais um jantar, vamos lá, você consegue. E quando eu entro na sala silenciosa... “Surpresa!” é o grito em uníssono que ressoa em meus ouvidos já debilitados. A família inteira reunida, sorrindo e batendo palmas. A felicidade varre meu peito, enquanto o coração bate descontrolado e as lágrimas borram a maquiagem. Como pude me esquecer do meu próprio aniversário? Já não importa mais. Os abraços me envolvem, enchem-me de beijos no rosto e felicitações. Ao avistar Ricardo, meu coração quase para por um segundo. Ele se aproxima trazendo consigo meu filho mais velho, que eu já não via há tanto tempo... “Você veio, Sérgio!” e ele me responde: “Não perderia seu aniversário por nada, mãe.”

           Observo com orgulho minha família finalmente reunida, após tantos anos. Após tantas alegrias, após tantas brigas. O peito se enche de alegria. Todas as memórias da minha vida, vividas com cada um dos presentes, doces e amargas. Envelhecer não é fácil, mas é mais uma das etapas da vida. A infância, a adolescência, a fase adulta... Precisamos passar por cada uma delas para aprender a viver, e no fim, olhar para trás com orgulho de missão cumprida. De ter vivido tudo que se pôde viver. Eu nunca tive medo de viver, muito pelo contrário, nunca quis que essa experiência chegasse ao fim. Mas agora compreendo que o final é necessário. É chegada a hora da partida, e já não tenho mais medo.

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