História: Anastácia - Capítulo 07


Capítulo 07 - Curiosidades

Acordei cansada, com um pouco de mau humor, e o frio que não dava trégua. Eu já mencionei que não sou tão fã assim do frio? Mas como não havia alternativa, coloquei um sobretudo, botas e cachecol e fui pra aula. Duas aulas chatas sobre a História da Arte, porque a professora era muito enrolada para explicar, e eu já estava quase dormindo com a cabeça na carteira. No intervalo Maria encostou sua carteira na minha, dando-me uns cutucões nas costelas.

— Você não sabe ser mais sutil não? – perguntei, massageando o local, com uma careta.

— Ai como você é dolorida! – ela rolou os olhos, e então sorriu pra mim. — Só vim te perguntar como é ser a sensação da faculdade!

— Hein? Que sensação? – perguntei confusa, endireitando-me na cadeira e olhando pra ela. Esfregando os olhos, tentando me manter acordada.

— Você não percebeu que está todo mundo te olhando? – ela abafou um riso, e eu olhei a minha volta. Várias pessoas da sala me olhavam, principalmente os meninos, com um sorriso, e alguns fizeram ‘joinha’ quando os encarei.

— Eu não tinha percebido... Mas o que esse povo está olhando? Será que minhas olheiras estão tão feias assim?

— Digamos que você e sua loira não foram muito discretas ontem ao saírem numa Mercedes-Benz bem em frente ao portão da faculdade... – ela sorriu marota, e só então me lembrei! Eu até mesmo havia brincado com Anastácia sobre isso... De ser popular... Mas não imaginava que tinham prestado tanta atenção assim...

— Puta que pariu! – soltei, batendo a mão na testa.

— Então esse era o seu “bofe” de ontem? – Camila perguntou, juntando-se ao grupo. Eu não sabia da onde ela tinha surgido, não estava prestando muita atenção antes. A loira tinha um sorriso divertido nos lábios finos.

— É... Mais ou menos... – comentei, coçando a cabeça. Eu não estava muito a fim de entrar naquele assunto, principalmente porque não estava muito no humor, mas as duas pareciam não querer sair dali enquanto eu não contasse.

— Está bem na fita, hein novata? – olhei para o lado e percebi um garoto se aproximando. Eu já o havia visto na sala, sentava sempre no fundo, meio largado, gostava de conversar, mas era bem tranquilo. Tinha os cabelos na altura dos ombros, pretos, olhos fundos e era magro e alto.

— Aquela é sua namorada? – apesar da careta que a menina que me perguntou fez, ela parecia estar interessada. E quando percebi, eu estava rodeada de umas cinco pessoas.

— De onde vocês surgiram? É arrastão? – perguntei espantada, e eles riram. Novamente quem veio me explicar foi Maria.

— Ué, Leo... Como eu disse, muita gente viu vocês lá, e só de ver vocês duas juntas já deu pra sentir a química...

— Jura? – perguntei com minhas esperanças renascendo. — Eu também achei que temos química... – comentei, e aí todos voltaram a rir.

— Sabia! – Camila rebateu, batendo na mesa. — Agora desembucha, Leo. Conta tudo!

            E respirando fundo, sem muita alternativa, contei rapidamente como havia conhecido Anastácia e nossos encontros, claro, deixando de lado a parte do sexo ardente, só comentando que havia dormido com ela. Cada um deles parecia ter uma opinião diferente sobre o assunto. A moça, uma loirinha chatinha da nossa sala, descobri se chamar Letícia, mais criticava pelo meu modo de agir logo quando conheci a Ana. Camila ria e se divertia com meu jeito debochado, o garoto, que descobri se chamar Júlio, continuava estupefato por eu estar saindo com uma gata como a Anastácia, e a única que mal emitia opinião era Maria. Mas seu jeito de me olhar, como se guardasse um segredo, algo do qual compartilhássemos, já me dava pistas o suficiente para eu imaginar o que seria.

— E como é sair com uma mulher mais velha? – perguntou Camila, de repente.

— Ah não deve ser muito diferente... – comentou Marcela, rapidamente puxando sua carteira para mais perto. Era uma de minhas colegas também, acho que a única da minha sala assumidamente lésbica, e logo que entrou na sala e percebeu o teor da conversa, aproximou-se. — Mulher é tudo igual! Uma delícia. – passou a língua pelos lábios e começou a rir.

— Eu também acho... – comentou Júlio. — Pra mim tanto faz... Pode ser mais velha, mais nova, alta, baixa, magra... Sendo mulher, está ótimo! – todos voltaram a rir.

— Na verdade... É diferente... – no exato momento em que comecei a falar todos os olhos se voltaram pra mim, esperando ansiosamente que eu continuasse. — Eu só havia saído com moças da minha idade mais ou menos, e saindo agora com ela, uns dez, doze anos mais velha do que eu... É bem diferente... A mulher é mais independente, geralmente tem uma personalidade formada já, uma vida da qual ela toma conta, responsabilidades, e tudo mais... Não tem toda aquela insegurança que alguém que está começando a vida tem... Tem experiência... Acaba tendo umas conversas mais profundas... E acho que o relacionamento acaba sendo mais maduro, sabe? – eu parei de falar e todos me olhavam espantados.

— Sei... Pra mim isso parece papo de quem está apaixonada! – Maria finalmente falou, soltando uma risada, sendo seguida por todos.

— Ah, gente... – eu ia argumentar, mas a professora da próxima aula estava parada em nossa frente, de braços cruzados, com um olhar fuzilante.

— O intervalo já terminou, se não perceberam. Se quiserem ficar conversando, podem ir lá pra fora, mas não vão atrapalhar minha aula.

            Rapidamente estava desfeita a rodinha a minha volta. Só sobrou Maria, que continuou sentada do meu lado. Enquanto a professora explicava sobre as várias técnicas de pintura, a ruiva rabiscava no meu caderno. “Estou curiosa...” Foi o que ela escreveu, e eu já sabia sobre o que. Rabisquei: “Vamos a uma boate GLS amanhã. Quer ir?” E dessa vez ela só concordou com a cabeça. E assim a aula continuou. Voltei depois do almoço pra casa, e estava um pouco desanimada. Eu havia enviado vários currículos e nenhum havia chegado ainda. Eu estava recebendo uma mesada dos meus pais para me ajudar a me sustentar, mas queria poder trabalhar com alguma coisa e poder ter meu próprio dinheiro novamente. Li um pouco dos textos que a professora mandara e comecei um trabalho que era pra dali a um mês. Mas por mais que eu tentasse não conseguia tirar Anastácia da cabeça. Voltei apegar meu bloco de desenho e comecei outro esboço, dessa vez de um momento aleatório que ficara gravado em minha mente, do seu rosto, a sua postura... E comecei a desenhar.

            Novamente passei boa parte do dia desenhando, e quando me dei conta já estava entardecendo. Preparei um lanche pra mim na cozinha, e sentei-me para ver televisão. Dali alguns minutos meu celular apitou. “Esses dias têm sido tão estressantes... Gostaria que estivesse aqui.” Eu sorri, sentindo uma alegria imensa por dentro. Tomei mais um gole do suco de maracujá e respondi. “Eu te faria relaxar... Minhas mãos e boca têm um efeito muito prazeroso... ;)” Terminei de comer meu lanche e deitei no chão, com a cabeça apoiada na almofada; meu celular apitou de novo. “Hummm eu quero! Estou precisando da sua língua também...” Não preciso dizer que estremeci ao ler aquela mensagem, não é? Mas ao mesmo tempo... Não resisti! Tive que fazer uma brincadeirinha. Tirei uma foto fazendo careta, com a língua pra fora, apertando os olhos e franzindo o nariz e mandei pra ela, com a legenda: “Minha língua é toda sua.” Demorou mais alguns minutos e quando abri o aplicativo do celular, não era uma mensagem escrita, ela havia mandado um áudio. Apertei no local na tela do celular e meus ouvidos se encheram com sua risada gostosa.

Olha que eu corto ela fora e roubo pra mim... — ela disse entre risos e eu a respondi, por áudio também.

Só a língua? Tem mais coisa boa que você pode roubar só pra você... Devia me sequestrar inteira...

E eu vou... Amanhã você não me escapa. Mal posso esperar pra te ver amanhã de novo, Leo... — sua voz ficava tão sexy falando meu nome desse jeito, sensual... Baixo, rouco... Eu escondi o rosto no travesseiro, sentindo-me feito adolescente de novo.

Já está com saudades, loira? – eu mandei, mas dessa vez já se haviam passado dez minutos e nada de resposta. Será que ela não queria admitir? E havia ouvido meu áudio. Mandei um segundo. — Porque eu estou morrendo de vontade de sentir seu cheiro outra vez, seu gosto... Sua pele contra a minha... Seu corpo macio... – ela visualizou e eu esperei uns minutos. Finalmente me respondeu.

Não faz assim, Leo... – sua voz parecia ofegante, houve uma breve pausa em sua fala, e depois ela continuou. — Fico desejando você aqui, oh, exatamente onde minha mão está...

            Senti meu corpo todo estremecer de desejo, e minha mente já imaginou mil e uma imagens de Anastácia deitada em sua cama, completamente sexy, enrolada naqueles lençóis e se tocando pensando em mim. Senti meu coração se acelerar e meu rosto ficar completamente vermelho. Era realmente incrível sentir que uma mulher daquelas estava me desejando. Era uma boa massagem para o ego.

Logo eu estarei aí, pra satisfazer todos os seus desejos. – eu respondi.

            Ficamos conversando mais um pouco e depois de um tempo ela se despediu. Aproveitei a brecha e liguei para Karina, contando-lhe que Anastácia ia com a gente na boate, e ela adorou a notícia. Principalmente porque íamos de carro. Ela estava animada para conhecer a mulher que mexera tanto com a minha cabeça. Após desligar o telefone, havia um alerta de e-mail. Logo que abri a caixa de entrada, havia um e-mail de uma das empresas para as quais eu deixara meu currículo. Quase pulei de felicidade quando li o seu conteúdo:

“Prezada Leona, estamos interessados em seu currículo. Há uma vaga para assistente de escritório em nossa galeria e você se encaixaria em nosso perfil. Há possibilidades de crescimento dentro da empresa. Marcamos uma entrevista para segunda-feira às 9h, na Av. Paulista, 1580 – São Paulo. Tratar com Gabriel. Atenciosamente, Galeria Bittencourt – Arte e Decoração.”

            Uma possibilidade de emprego! Finalmente! E parecia ser em uma galeria chique, o que seria ainda melhor pra mim. Havia possibilidade de crescimento lá dentro, e se eu conseguisse mostrar minha arte? Seria incrível. Fiquei imaginando como seria o lugar, e eu esperava passar uma boa impressão, não podia perder aquela oportunidade. Acabei adormecendo em meio aos sonhos, e consequentemente acordei cedo na sexta-feira. Cheguei à faculdade adiantada, pensando em tomar um café na cantina. Maria já estava por lá, sentada em uma das mesinhas. Aproximei-me da ruiva e me sentei de frente pra ela. Fiquei esperando que ela começasse a conversa, o que não demorou muito.

— Eu não sei o que aconteceu ontem... Toda essa sua história misteriosa com essa mulher tem me feito pensar bastante sobre muita coisa... – ela disse incerta.

— Bem eu não havia comentado isso com vocês porque estamos sempre falando sobre a faculdade, e ambas têm namorado... – dei de ombros.

— Sim, eu tenho. Mas a relação está um pouco desgastada, exatamente por fazer muito tempo. E sei lá, estou curiosa... É um tópico que nunca havia me ocorrido... Tenho amigas lésbicas e tudo mais, mas nunca tinha pensado na possibilidade, até agora.

— Olha, não precisa ficar tão apreensiva quanto a isso. Pode ser que você apenas ache legal, tenha curiosidade, sinta-se atraída, mas não necessariamente é lésbica. Mas pode até ser que seja, caso goste de mulheres, tenha sentimentos por elas, e coisas assim.

— Imagina se eu for? Como... Depois de tanto tempo saindo com caras? Sem nunca ter me interessado por ninguém? – ela arregalou os olhos, falando rápido, nervosa.

— Calma, Ma, você não tem certeza de nada ainda. Dê tempo ao tempo. Vamos sair, você vê como se sente... Às vezes nem é nada demais. E se for, você vai descobrir como lidar com isso. – sorri tranquilizando-a.


            Mas em minha mente milhões de pensamentos começaram a se formar. Observar minha amiga cheia de dúvidas daquela forma fazia-me lembrar de Anastácia. Ela também era hetero, até onde sabia. Sempre se interessara por homens... Como será que ela estaria lidando por estar saindo com uma mulher? Isso era uma coisa que eu ainda não havia perguntado pra ela... Será que tinha medo também? Eu podia perceber em alguns detalhes que tinha receio de parecer o que não era, ou será que era? De qualquer forma, as pessoas têm mania de querer colocar as outras em uma caixinha, sendo que existe uma variedade enorme entre nós. Muitas mulheres, e homens também, podem sentir desejo pelo mesmo sexo, ou apenas simpatizar, e não necessariamente serem homossexuais. Ainda existiam os bissexuais, que gostam de ambos os sexos. E eu acreditava que também existia apenas o amor. No caso da Anastácia, ela havia se interessado por mim, e nunca havia questionado sua sexualidade antes. Será que ela se questionava agora? Eu não conseguia segurar meus pensamentos e sentimentos, mas percebia o caminho perigoso e tortuoso para o qual eles seguiam. Eu estava assumindo que ela sentia mais por mim do que um simples desejo... Eu poderia estar muito enganada. E se esse fosse o caso, a queda seria grande. 

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