História: Anastácia - Capítulo 05


Capítulo 05 - Surpresas

— Puta que pariu! – eu comentei ao olhar para o celular. 

Já era sábado de tardezinha e eu ainda estava na cama de Anastácia. Ficamos conversando uma boa parte do dia; a empregada nos trouxe café na cama, e nem pareceu demonstrar surpresa que sua patroa estivesse acompanhada. Comentei-lhe sobre a minha faculdade, quando ela me perguntou o que eu fazia, e que eu estava fazendo Artes, havia transferido da minha cidade natal para São Paulo, que as aulas começavam em agosto e eu estava contente por faltar pouco para me formar. Apesar de tirar sarro por eu ainda estar na faculdade, como se isso enfatizasse o termo “garota” que ela tanto gostava de usar, ela parecia interessada nas coisas que eu lhe contava. Só então, quando finalmente eu percebi que estava entardecendo, levantei-me da cama e fui até minha bolsa, que ficara em cima de uma poltrona desde a noite anterior.

— O que houve? – ela perguntou, sentando-se na cama.

Dez mensagens e duas ligações perdidas de Karina. Três mensagens e uma ligação perdida de Bruno. Quatro mensagens de Marcelo. Duas mensagens da minha irmã. Sete ligações perdidas da minha mãe. Adivinha qual deles me fez entrar em desespero?

 — Acho que meu pessoal pensou que fui raptada, só pode! – voltei para a cama dela, sentando-me na beirada. Ela se aproximou, colocando a cabeça sobre meu ombro, observando o que eu fazia no celular.

— O que não é de todo mentira... – ela sorriu. — Vai responder quem primeiro?

— Quem você acha? Minha mãe, lógico. – respondi como se não houvesse nenhuma outra resposta possível.

Entrei na agenda do meu celular e disquei para minha mãe. Enquanto eu esperava que ela atendesse, Anastácia deitou-se na cama, perto de mim, observando-me, com um sorriso no rosto. Passava a mão pela minha perna, acariciando levemente. E eu já estava começando a me perder na beleza daquela mulher quando o grito da minha mãe do outro lado do telefone me fez acordar pra realidade.

— Leona, não tem mais família não?

— Oi mãe... Desculpa, eu...

— Você era pra ter nos ligado esses dias todos e nem sinal de vida! Nem pra dizer se está bem, se precisa de alguma coisa, se está viva... Nem para saber como estamos!

— Eu sei, eu sei... É que passei esses dias atrás de emprego e fazendo minhas coisas, acabou não dando tempo... E hoje... Eu estive ocupada... – comentei desviando os olhos para a loira ao meu lado, que sorriu, sussurrando um ‘bem ocupada’.

— Sei... Bem eu queria saber se está tudo bem, e avisar que no próximo final de semana nós vamos fazer uma viagem a São Paulo e queríamos te ver.

— Ah sim, sem problemas, podemos sair no próximo... – a loira mordiscou o lábio inferior e apertou minha perna com as unhas. Tive que conter um gemido. — Mãe... Eu preciso ir, prometo ligar de novo depois. – após alguns protestos do lado dela, finalmente desliguei o celular.

— Sua mãe fica muito no seu pé, não é, garota? – ela logo me perguntou, recostando-se na cabeceira da cama, com uma sobrancelha arqueada.

— Não, não é tanto assim... – mostrei-lhe a língua. — É só que eu prometi que ligaria para avisar como tudo estava indo, e acabei esquecendo... Fora que ela quer me encontrar no próximo fim de semana... Sabe como é... Mães...

— É, eu acho que sei... – seu semblante ficou mais sério e eu achei aquilo esquisito.

— O que houve? – perguntei preocupada, tocando seu braço de leve.

— Minha mãe nunca foi exatamente maternal... Mas deixamos isso pra lá. – ela sorriu e se levantou da cama. — Vem, vamos, eu vou te deixar na sua casa.

— Está me expulsando? – fiz um gesto exagerado de surpresa. Ela riu, pegando uma calça jeans que estava em cima da poltrona e a colocando. Colocou um sutiã rendado e veio até mim, dando-me leves beijos nos lábios.

— Estou... Preciso trabalhar, de verdade. E com você aqui, vai ser muito difícil... Fora que eu acho que a senhorita tem explicações a dar aos seus amigos... – ela me provocou, dando de ombros.

— Não são explicações... Senhorita independente... – levantei-me também recolocando a roupa do dia anterior.

            Saímos de sua casa e eu expliquei onde morava, pra cima da Avenida Higienópolis. Quando ela parou na porta do meu prédio, ficamos algum tempo sem nada dizer. Ela se virou para mim, com um sorriso no rosto. Aos poucos eu estava aprendendo a desvendar seus sorrisos. Quando ela se virava assim dava para perceber que ia dizer algo, e geralmente, algo bem direto.

— Não exploramos ainda toda a sua habilidade sexual, então eu terei que te sequestrar de novo. – esse era o seu jeito de dizer que queria me ver novamente.

— Hummm eu adorei essa ideia. Pode me sequestrar quantas vezes quiser! – estendi os braços em sua direção, com os pulsos juntos, como se fosse me algemar.

— Ótimo. Nos falamos então... – ela se aproximou e me beijou intensamente.

            Quando entrei em meu apartamento e joguei-me no sofá, fiquei pensando em tudo o que me acontecera naquele final de semana. Parecia muito surreal para ser verdade. E apesar de eu ter conseguido saciar meus desejos por ela, percebia que eu só havia ficado mais fascinada ainda por aquela mulher. Peguei o celular e liguei para Karina, e após ouvir algumas reclamações exageradas sobre meu sumiço, confessei que precisava conversar e contar-lhe exatamente tudo o que tinha me acontecido naquela semana. Não precisei dizer duas vezes. Duas horas depois estávamos ambas sentadas no chão da sala, com uma pizza e uma coca-cola grande entre nós. Contei-lhe tudo do começo, sobre como conheci Anastácia, o dia eu que eu havia visto perto da boate, nosso primeiro encontro e como eu fora parar na cama dela. Minha amiga ouviu tudo com a boca aberta.

— Sua sortuda de uma figa! – ela começou a rir batendo a mão na própria perna. — Por isso que sumiu! Também, quem em sã consciência não sumiria com uma mulher dessas por perto? – ela sorriu pra mim, dando uma piscadinha.

— Exatamente. – sorri, mordendo um pedaço da pizza de calabresa. — Quando contei pro Bruno, no dia em que a conheci, ele me disse algo sobre eu estar encrencada... E eu acho que estou... – fiz uma careta.

— Sim, você está. Lindamente encrencada. Você não conhece muito sobre a vida dela, conhece? – e com uma negativa minha, ela continuou. — Então, não sabe se ela só quer se divertir... Pra começo de conversa, ela é hetero, até onde sabemos...

— Eu sei... Mas ela gostou de mim... – tomei um gole da coca.

— Verdade, mas sabe que só gostar não leva a nada... Acho bom ir com um pouco de calma... Deixar que ela venha até você, ver aonde você está pisando, essas coisas...

— Tem razão...

— Mas e aí... – ela se animou novamente, sentando-se de pernas cruzadas. — Ela é muito boa na cama? Como foi?

            Comecei a rir e confirmei. Ficamos conversando por mais um bom tempo, compartilhando detalhes. Karina me contou sobre seu rolo com uma menina que não se resolvia se queria ou não ficar com ela, sobre as brigas com a ex-namorada que não saia do pé dela, e coisas do tipo. Quando já estava de noite e minha amiga já havia ido embora, liguei para os meus pais e comentei sobre minha experiência em São Paulo, as saídas com meus amigos... Só ocultei o fato de ter conhecido Anastácia. Apesar de saber que se continuasse assim, não demoraria muito para eles descobrirem sobre ela. Meus pais sabiam sobre minha condição sexual desde que eu era adolescente, e aceitavam numa boa. Então eu não precisava esconder namoradas e muito menos paqueras. Aliás, minha mãe havia sofrido junto comigo quando houve términos de namoro. E por terem me feito sofrer, ela nunca gostara muito de minhas ex-namoradas. Somente uma delas, Marina, era o seu xodó. E exatamente essa havia terminado comigo de modo tranquilo, sem traições ou coisas assim.

            Os dias foram se passando e eu mal falei com Anastácia. Trocamos algumas mensagens, mas como ela bem me disse, estava bastante ocupada naquela semana. Eu tentei dar um tempo, fazer as coisas que eu tinha que fazer. Levei alguns documentos da transferência que ainda faltavam para a faculdade, continuei pintando um outro quadro que eu havia começado, conversava com meus amigos... Infelizmente eu ainda não havia tido resposta de emprego, mas continuei levando meus currículos. Finalmente agosto chegou, e eu comecei a ter menos tempo de sobra, já que voltei para a faculdade. Geralmente voltava para casa depois do almoço, mas às vezes apenas quase anoitecendo. No tempo livre eu revezava entre pintar e estudar. Em uma dessas noites eu estava lendo um texto sobre um dos pintores clássicos e estava quase dormindo sentada, cansada demais para prestar muita atenção, mas precisava ler. Enquanto tentava me manter acordada, meu celular apitou.

            “Nesse frio não existiria melhor coisa do que um vinho, lareira e você para o meu jantar...” Um sorriso instantaneamente se formou em meu rosto, e eu corri responder. “Ia ficar melhor ainda com um banho quente e delicioso...”. Não preciso dizer que meu sono passou como em um passe de mágica. “Eu falo em jantar e você já pensa em me ter nua? Rs” Eu me levantei para pegar um leite quente para mim e respondi. “Meter em você nua ou vestida são ambas possibilidades muito gostosas e viáveis.” Demorou alguns minutos até que sua resposta viesse dessa vez, e eu fiquei imaginando se ela estaria ocupada, se estava falando com alguém, e minha ansiedade começou a bater. “E isso vai acontecer antes do que imagina... ;)” e logo após a mensagem ela me mandou uma foto na qual aparecia apenas a mão dela segurando a taça de vinho, com as roupas no chão e a parte de baixo da banheira. Aquela mulher me deixava completamente louca! Ah se eu pudesse estar com ela naquele momento... Mas então voltei a olhar para o texto que estava esquecido no chão. Eu realmente precisava terminar aquele e ainda tinha mais dois para ler.

            No outro dia eu saí atrasada de casa, e para piorar, o dia estava cinzento e frio. Toda encapotada eu saí de casa e cheguei na segunda aula. Pelo menos foi a tempo da aula em que a professora iria fazer perguntas sobre os textos lidos. Apesar das olheiras embaixo dos olhos, eu consegui responder a maioria das perguntas dirigidas a mim. Na hora do almoço comi um salgado na cantina, conversando com duas colegas de classe, Camila e Maria. Elas eram primas e bem engraçadas, muito inteligentes e adoravam conversar. Logo no primeiro dia já puxaram conversa comigo e desde então tínhamos sentado todos os dias na hora do almoço ou intervalo para conversar. Enquanto elas estavam no meio de uma discussão do assunto da aula anterior, eu estava quase dormindo com a cabeça em cima da mesa, até que meu celular vibrou na minha calça. Peguei o aparelho e por um segundo imaginei ser Karina, mas para minha surpresa era Anastácia. “Só me responda uma coisa: tem algo marcado agora à tarde?” Sorri e respondi rapidamente. “Não. Por quê?”

— Quem é o bofe? – perguntou Maria de repente, ganhando minha atenção.

— Hein?

— Ué, pra você ficar tão animadinha assim do nada sendo que estava quase dormindo... – a outra de cabelos loiros curtos respondeu.

— Ah... Não é ninguém... – comecei a rir, recebendo o olhar curioso de Maria. Ela tinha um sorriso no rosto redondo como se tivesse descoberto a América.

— A não ser que não seja um bofe... – antes que ela pudesse concluir o que ia dizer, meu celular vibrou na minha mão e eu rapidamente chequei a mensagem. “Estou aqui fora te esperando. Vem logo!”

— Eu preciso ir. – lancei um sorriso amarelo para as duas, pegando minha bolsa e minhas pastas e me levantando. — Depois a gente se fala. – mandei beijos no ar e saí rapidamente, ouvindo ambas comentando baixinho sobre o que teria acontecido.

            Pela expressão que eu vi no rosto da ruiva Maria sabia que ela tinha acertado na mosca. Não que eu me incomodasse que soubessem da minha condição sexual, aliás eu não fazia questão nenhuma de esconder. Eu só esperava para contar para as pessoas, e compartilhava com amigos apenas. Com elas ainda não havia dado tempo de comentar coisas muito pessoais, salvo que ambas tinham namorado. De qualquer forma não me preocupei muito, já que rapidamente percorri a distância até a porta da faculdade com o coração pulando de felicidade. Quando passei pelos portões logo vi o Mercedes parado quase em frente, com Anastácia encostada na lateral do carro, esperando-me. Várias pessoas que estavam por ali não tiravam os olhos do carro e da loira que ali estava. Também, ela vestia uma calça jeans justa, sapatos de plataforma, uma blusa simples e jaqueta marrom claro de couro. Os cabelos loiros estavam lisos e com óculos escuros no topo da cabeça. Ela abriu um enorme sorriso quando me viu me aproximar.

— É hoje que me tornei popular! Saindo da faculdade com uma Mercedes dirigida por uma loiraça como você... – comentei entrando no carro. Ela deu a volta e sentou-se no banco do motorista.

— Boa tarde para você também, senhorita popular. – ela sorriu.

— Isso me lembra um filme... – comentei ao acaso.

— Qual? – ela trocou as marchas e começou a dirigir.

— “Um Show de Vizinha”. O mocinho se apaixona por uma moça que ele descobre ser prostituta. Ela vai buscá-lo na escola desse jeito. – eu mal terminei de falar Anastácia virou-se pra mim com os olhos faiscando de irritação.

— Está me chamando de prostituta? – e quando ela percebeu que eu estava quase gargalhando por vê-la irritada, ela bufou e voltou a focar a atenção na rua à sua frente. — Não que isso seja algo ruim... Não há nada de errado... – ela tentou consertar, o que me fez rir ainda mais alto. – Cala a boca, Leona! – ela me deu um tapa na perna.

— Desculpa, Ana, mas foi muito engraçado a cara que você fez... – ela me olhou de canto. Devia ser uma das primeiras vezes que eu a chamara assim. — E sim, não há nada de errado em ser prostituta... Eu só dou graças a Deus que você não é... – eu sabia que ela não iria ficar sem me perguntar.

— Por quê? – dito e feito.

— Eu teria que dividir você com muita gente... E eu não quero dividir você com ninguém. – eu disse firme. Apesar de ela continuar encarando o trânsito, pude perceber um sorriso sincero nascendo em seu rosto.

— Engraçadinha...

— Aliás, pra onde está me levando? – perguntei só então parando pra prestar atenção no caminho. Estávamos perto da Avenida Paulista.


— Surpresa... Logo saberá. E acho que vai gostar... – ela sorriu novamente, mordiscando o lábio inferior. 

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