História: Anastácia - Capítulo 03


Capítulo 03 – A Modelo Original

            Alguns dias haviam se passado e estava quase no final de semana seguinte. Desde então eu não havia mais falado com Anastácia, e ela também não dera sinal de vida. Passei meus dias andando pro São Paulo entregando currículos. Eu ainda não tinha trabalho por lá, e apesar de sermos uma família rica, meus pais não tinham negócio próprio em que eu pudesse trabalhar. Aliás, eu nem queria, já que pretendia seguir no ramo das Artes mesmo. Havia deixado currículos em curadorias de arte, lojas de quadros e pinturas, vendas e revendas, e até mesmo em floriculturas! Voltava para casa ao final do dia, cansada, e só comia algo e ia dormir. Nas folgas eu continuava pintando aquela tela que eu começara, do girassol em meio às rosas. Viver em São Paulo estava sendo quase como eu imaginei que seria. Apesar de ter saído poucas vezes para me divertir, sabia que nos finais de semana isso seria fácil. Estava perto dos meus amigos, e eu adorava essa variedade de pessoas, situações e lugares que somente São Paulo tinha.

            E, claro, eu estava esperando encontrar uma namorada para mim, talvez uma que durasse dessa vez. Eu havia achado o amor da minha vida muito cedo, mas infelizmente ela não era quem eu achava que era. Tínhamos uma química incrível e tínhamos namorado por dois anos, mas as brigas eram constantes. Ela morava em outro estado e claramente parecia não ter tempo para viajar para me ver, nem mesmo disposição. Já estava cansada de ser a única tentando, não valia a pena. Após alguns rolos e paqueras, nada muito sério, eu finalmente havia achado a pessoa que iria passar o resto da minha vida. Era da minha própria cidade. E fora por ela que eu passara muito tempo na fossa. Ela havia me traído com uma ex dela, brigamos muito feio e após uns meses longe, acabei aceitando-a de volta. Pior coisa que eu fiz em toda a minha vida. Não bastasse o primeiro chifre, levei mais dois. Depois disso passei muito tempo em negação, achando que o amor não valia a pena. Quis desistir de achar alguém que fosse gostar de mim. Passei por uma fase muito difícil e meio obscura...

            Até que um dia parei e pensei sobre minha vida, minha situação... Eu sempre quis conhecer o mundo, ir embora da minha cidade, conhecer tantas pessoas diferentes... O que eu ainda estava fazendo parada ali? Falei com meus pais e vendi o apartamento que eu tinha em minha cidade natal, transferi a faculdade, achei um lugar bom em São Paulo e me mudei de vez. A única coisa que me intrigava naquele momento e que parecia ser certo, mas bem fora do lugar, era Anastácia. Eu não tinha dúvidas de que alguma coisa iria sair disso, mas ela parecia tão difícil... Todos os dias eu olhava meu celular na esperança de que ela pudesse ter me mandado uma mensagem, mas nada havia. Confesso que agora eu estava muito mais curiosa do que no começo. Claro que ela era estonteantemente sexy e meu maior desejo era estar em sua cama... Mas eu queria muito mais do que isso. Como eu lhe havia dito, queria conhecê-la, saber do que ela gostava... O que queria... Ouvir suas experiências... Eu precisava retomar o contato.

            “Está ocupada?” Mandei a mensagem na quinta-feira à noite, enquanto jantava.
Demorou uns bons minutos até que ela me respondesse. “Um pouco... Muito trabalho essa semana.” Fiquei um pouco decepcionada, imaginando que provavelmente não conversaríamos. “Que pena... Quer sair comigo amanhã à noite?” Resolvi perguntar logo de uma vez. Eu estava achando muito pouco conversar com ela através de mensagens. Queria vê-la, olhar em seus olhos... Ouvir sua voz... “Não sei... Tenho estado bem ocupada...” Eita mulher difícil! “Em uma sexta à noite? Prometo ser a melhor companhia do seu final de semana ;)” Eu esperava mesmo que sim, apenas imaginando se ela já tinha feito planos... “Então te encontro naquele bar, pode ser?”
“Claro. Amanhã às 21h. Beijos, Loira.” E sua resposta me deixou com um sorriso no rosto. “Beijos, Leo.” Eu a imaginava falando meu nome em voz alta e nunca gostei tanto de um apelido como estava gostando do meu. Aliás, tudo naquela boca parecia ser mais gostoso.

            Nunca esperei tão ansiosamente para um fim de semana quanto eu esperava por aquele. Tive que recusar alguns convites de saída dos meus amigos dizendo que eu já tinha um compromisso, e ele era inadiável. Karina foi a que mais insistira, querendo de todas as formas descobrir o que eu tinha marcado e para onde ia, e o mais importante: com quem. Logo eu teria que contar-lhe sobre Anastácia, ou seria capaz de ela me matar se soubesse de outra forma. Na sexta-feira voltei a sair por São Paulo para entregar currículos durante a parte da manhã. Estava um dia bonito, ensolarado. Voltei para casa na hora do almoço e fiz um pouco de macarrão com carne picada para comer. E na parte da tarde voltei a fazer o que eu mais gostava: pintar. Terminei o quadro que eu havia começado e quando olhei em meu celular já eram quase seis horas da tarde. Eu precisava começar a me arrumar. Apesar de não demorar tanto assim, eu sabia que o trânsito em São Paulo era complicado. Dependendo de pra onde ia e quais conduções você teria que pegar, seria bom sair com uma ou duas horas de antecedência. E ainda assim correr o risco de chegar atrasado.

            Tomei um bom banho, e quando entrei em meu quarto, parei um pouco para me admirar no espelho. Eu não era muito alta, tinha um corpo levemente cheinho, apesar de não estar muito acima do peso. Ajeitei meus cabelos ondulados atrás das orelhas. Mordisquei o lábio... É, Leona, você precisa de muito para conseguir conquistar uma mulher daquelas... Voltei-me para o meu guarda-roupa e escolhi uma calça jeans escura, blusa preta decotada e sandálias prateadas. Passei um dos meus perfumes favoritos, um pouco doce, e ajeitei meus cabelos com creme para que ficassem um pouco mais cacheados. De maquiagem apenas lápis, delineador, rimel e um batom rosa escuro. Após checar pela milésima vez se eu estava com tudo no lugar, saí de casa. Peguei o metrô um pouco cheio ainda, pelo fato de serem oito horas de uma sexta-feira. Mas eu não estava me importando naquele dia. Meu estômago estava se revirando de ansiedade, e milhões de bobagens se passavam pela minha cabeça. E se ela não aparecesse?

            Depois de meia hora quase eu estava novamente naquele bar chamado “Bistrot de Paris” na rua Augusta. Ele era um local meio escondido, mas bem sofisticado. Havia a parte do bar, onde tinha um balcão com vários bancos, e a parte de restaurante, com várias mesas tanto do lado de dentro quanto algumas do lado de fora. Entrei e me sentei em uma das mesas, enquanto esperava. O garçom veio e eu pedi apenas um vinho. Passados vinte minutos do horário combinado, a ansiedade me dizia de que ela não iria aparecer. Eu tentava me convencer de que ela podia apenas estar atrasada... Resolvi esperar mais vinte minutos, e se ela não aparecesse e nem mandassem mensagem, eu iria embora. Foi então que ela apareceu.

Ela tinha acabado de entrar e eu não conseguia parar de olhá-la. Ainda me surpreendia em como ela podia ser tão bela e elegante. Dessa vez estava com um vestido comprido em tons de azul escuro, estampado, todo craquelado. Incrível como aquele tom de azul caía bem em sua pele! E o vestido era decotado em formato de ‘V’. Usava brincos de argola prateados e alguns acessórios também. Sim, eu sei de tudo isso, pois fiquei olhando-a até sentir seus olhos sobre mim, e com um sorriso no rosto se encaminhar em minha direção. Levantei rapidamente, tentando sorrir e não parecer tão abobada. Conforme nos abraçamos senti o seu perfume novamente.

— Boa noite, Leo. – ela me cumprimentou com dois beijos no rosto.

— Boa noite, Loira. – ela me olhou divertida e abriu um sorriso, enquanto se sentava de frente para mim. O garçom voltou em nossa mesa e ela também pediu um vinho suave para si.

— Você está linda... – comentei, enquanto a observava.

— Obrigada, você também. E não, não é um elogio retório. – ela arqueou uma sobrancelha e eu senti corar. Pode parecer bobo, mas ela me achava linda.

— Obrigada... – Ficamos em silêncio por alguns instantes, até que ela voltou a dizer:

— Então, gostou da minha foto? – ela se debruçou apoiando os cotovelos sobre a mesa e me olhando com um sorriso malicioso. Bem direta... Então também fui.

— Se gostei? Emoldurei e coloquei na parede do meu quarto, assim te desejo toda noite antes de dormir. – sorri ao perceber que ela havia adorado a resposta.

— Bom saber, posso mandar mais, então... – ela voltou a se recostar na cadeira.

— Claro! Mas eu adoraria era se me mandasse a modelo original... – respondi tomando um gole do vinho.

— Adoraria, é? Precisa mais do que isso para ter a original... – o garçom se aproximou e nossa conversa se interrompeu. Pedimos o prato do dia e mais duas taças de vinho. Quando ele se afastou, eu voltei a olhá-la.

— Okay, vou falar a verdade. Eu não adoraria, não amaria, não desejaria... Eu quero a original. – respondi com convicção e pude perceber um brilho em seus olhos. Ela mordiscou o lábio inferior, tentando não sorrir tão abertamente.

— Tem certeza do que você quer, garota? – e antes que eu pudesse responder, ela fez um movimento de cabeça, pedindo para eu esperar ela terminar. — Você não sabe onde está se metendo... Pode não gostar do que encontrar no caminho... Isso se chegar até lá... – ela pareceu um pouco séria demais pro meu gosto.

— Sim, eu tenho certeza. Falando sem toda a safadeza, que por sinal eu adoro – dei um sorrisinho –, você me fascinou, e eu quero muito conhecer você. 

— Você sabe que eu não gosto de mulheres, não sabe? – ela voltou a alfinetar, e eu continuei sorrindo.

— Eu sei. Mas você gosta de mim.

— Talvez... – ela deu de ombros.

Nossos pratos chegaram e começamos a jantar. Por alguns momentos a conversa ficou esquecida e logo outros assuntos surgiram. Eu comentei que havia me mudado recentemente, que tinha saído com alguns amigos, que estava procurando um emprego... E ela me contou como estava trabalhando sem parar durante aquela semana em sua empresa. Havia alguns eventos que ela precisava comparecer e coisas do tipo. Quando o jantar terminou, logo ao sairmos recebemos a brisa levemente gelada da noite. O céu estava estrelado, bonito, com algumas nuvens. Olhei novamente para Anastácia e ela parecia ainda mais bonita.

— Tem um lugar aqui perto que eu gosto muito de ir quando estou sozinha... – ela comentou, dando alguns passos para frente na continuação da rua. Acompanhei-a.

— O que é? – perguntei, mas ela não me respondeu.

Andamos duas ruas para frente e viramos em uma esquina. Havia como se fosse um pequeno pátio, com árvores grandes, alguns bancos para se sentar, luminárias... Uma ou outra loja, alguns cafés... O clima era bem agradável, fresco... Ela se sentou em um dos bancos de pedra e eu me sentei ao seu lado.

— Eu gosto de vir aqui para pensar... Relaxar um pouco. De vez em quando tomo um café... Às vezes leio... Apesar de no meu bairro ter algumas praças muito bonitas, nenhuma delas me faz sentir assim...

— Em paz. – eu completei. Ela me olhou intensamente por alguns instantes e sorriu.

— Sim, em paz. – ela recostou-se no banco virando-se levemente para mim e cruzou as pernas. — E sabe por que eu preciso de paz, Leo? – eu estremecia todas as vezes que ela falava meu nome.

— Por quê? – perguntei virando-me para ela também, tentando não olhar para os lábios dela.

— Porque eu sou o caos. Eu sou tempestade. – seus olhos se escureceram e eu tremi novamente. Apesar de saber que deveria temer aquela informação, tudo o que eu sentia naquele momento era mais admiração ainda.

— Incrível... – comentei. — E eu acho que entendo... Posso não ser uma tempestade... Talvez uma trovoada... – brinquei e ela deu uma risada. — Mas sou tão controlada em tantos aspectos da minha vida... Tão travada que acabo desejando que alguém me...

— Domasse? – olhei-a surpresa, percebendo um sorriso no canto dos lábios e aquele olhar... Instantaneamente voltei a estremecer, e sabia muito bem que aquilo não era frio.

— Não era bem isso o que eu ia dizer... – estava meio sem jeito, sorrindo nervosa.

— Mas é o que quer, não é Leona? – ela me olhou intensamente de novo, colocando uma mão em minha coxa. Fiquei muda! Apesar de querer muito responder, eu estava seriamente nervosa. Em minha mente eu tinha respostas perfeitas e sagazes, mas em situações como aquela eu me perdia e nada dizia. Ela voltou a insistir:

— Se eu não tiver a minha resposta... Realmente, você não teria competência para me ter ao seu lado. – e sim, do modo como ela falou ficou claro o duplo sentido na frase. Eu precisava agir, e rápido. Engoli em seco, respirei fundo, abri o sorriso mais sacana que consegui e respondi:

— Eu quero. Quero ser domada por você, Anastácia. É só o que eu quero desde que lhe conheci. Eu quero você. – passei a língua pelos lábios, encarando as íris castanhas.

            Ela se aproximou, passando a mão pelas minhas pernas, e eu fiquei completamente sem ar. De repente, ela se levantou e deu a volta no banco, ficando bem atrás de mim. Debruçou-se sobre meus ombros, seus cabelos loiros caíram por sobre meu corpo. Ela afastou meus cabelos para o lado e beijou meu pescoço. Gemi baixinho instintivamente e fechei os olhos. Ela voltou a sussurrar em meu ouvido, enquanto suas mãos iam acariciando meu corpo, por cima da roupa, nos seios, barriga, e descendo...

— Sabe qual outro motivo de eu gostar daqui? – sua voz rouca tão perto do meu ouvido me fez soltar um grunhido em resposta. — Porque é meio escondido e quase não se vê ninguém... Ainda mais a essa hora da noite... – sua mão desceu por entre minhas pernas e ela apertou meu sexo por cima da calça. Soltei um gemido mais alto. Segurei em seu pescoço virei a cabeça para o lado, capturando seus lábios nos meus, sentindo pela primeira vez o beijo de Anastácia. O beijo tornou-se intenso, ela tinha um gosto viciante. Mas antes que eu pudesse continuar, ela parou e começou a sorrir.

— O que foi? – perguntei confusa.

— Eu só queria saber se você ia se preocupar por estarmos aqui ou se iria se deixar levar... Tive minha resposta. – ela se endireitou e deu alguns passos até parar ao meu lado.

— E isso é bom? – sorri já me levantando também.

— Digamos que você ganhou seu bilhete premiado por esta noite. – começamos a andar lado a lado, voltando para o mundo real e a rua cheia de pessoas e barulhos de carros.

— E qual é o meu prêmio? – perguntei curiosa. Ela se virou para mim, mordiscou o lábio inferior e finalmente me respondeu:


— A modelo original.

Nenhum comentário

Postar um comentário

Layout por Maryana Sales - Tecnologia Blogger