História - Anastácia: capítulo 02


Capítulo 02 – Provocações

            Já era tarde e eu passara a maior parte do sábado trabalhando em meu apartamento. Desencaixotando minhas coisas, colocando-as no lugar, fazendo uma lista de coisas que eu precisava comprar para me manter... Desembrulhando alguns quadros e pendurando-os na parede. Como havia dois quartos no apartamento, um deles certamente serviria de estúdio para eu pintar. Haveria cavaletes, quadros, tintas, pincéis, aparelho de som, entre outras coisas. Naquele dia eu só havia recebido a ligação de Karina, uma das minhas melhores amigas. A mais próxima, na verdade. Ela estava louca para ir a uma boate comigo, já que agora eu morava na mesma cidade que ela. E por mais que eu tentasse convencer-lhe de que eu não queria ir, não adiantou. Ela era tão teimosa quanto eu e não iria aceitar um não, ainda mais num sábado, no qual eu não tinha nada para fazer.
           
            Apesar de ter pensado em Anastácia logo quando acordei, por ter tido a sensação de que havia sonhado com ela, pelo resto do dia eu ficara tão entretida na arrumação que esqueci de todo o resto. Eu estava com o rádio ligado, ouvindo música e dançando pela casa enquanto arrumava tudo, quando ouvi uma batida insistente na porta. Confesso que por um milésimo de segundo pensei na loira... Mas então percebi o quão boba eu estava sendo. Como poderia ser ela, pelo amor de Deus? Corri atender à porta.

— Achei que fosse me deixar plantada aqui a noite inteira esperando. – esse foi o cumprimento de Karina quando abri a porta e deixei-a passar para dentro do apartamento.

— Mas é exageradaaaa... – comentei fechando a porta e sorrindo, abri os braços.

— Sua idiota! – ela me deu um superabraço e começou a rir. — Então este é o seu apartamento, hein? Bonito... – ela começou a observar as paredes, os móveis...

— Sim... Eu também adorei. Foi por isso que demorei, eu estava arrumando tudo. – comentei, tirando alguns itens que estavam no chão e recolocando dentro das caixas, apenas para não deixar espalhado.

— Do jeito que você é tão certinha, capaz de virar a noite aqui arrumando tudo. – ela revirou os olhos, sentando-se no sofá. — Fofinho... Aconchegante... Gostei... – disse sorrindo e se recostando.

— Eu não sou certinha... Só organizada. – retruquei.

— Muito bem, senhorita organizada, vai logo se arrumar senão não é hoje que saímos daqui.

            Fui logo me arrumar e fazer a vontade de Karina. Ela era minha amiga desde que eu me conhecia por gente. Na adolescência sua família se mudara para São Paulo e ficamos separadas por alguns anos, o que tecnicamente foi bem difícil e bem caro (contando todas as contas de telefone e passagens de ônibus que gastamos). Sempre fomos um pouco uma o contrário da outra. Então as brigas eram inevitáveis, principalmente quando divergíamos no ponto de vista. Mas logo nos entendíamos e de alguma forma fazíamos essa amizade funcionar.

            Resolvi lavar meu cabelo, e depois sequei e ajeitei. Ele era meio ondulado, castanho, e depois de um bom banho e creme ele ficava bem cacheado. Resolvi por uma calça jeans e uma blusa azul escura, de botões dourados, e mangas compridas. Maquiagem leve, como eu sempre gostava, perfume, sandálias de salto... Quando eu estava em casa usava algo bem casual, e quando eu estava pintando não me importava em usar roupas surradas, especialmente porque iriam manchar de tinta. Eu tinha até uma blusa já toda colorida por pinceladas, e era uma das minhas favoritas para usar quando estava trabalhando em meus quadros. Mas quando eu precisava sair, como naquele dia, eu gostava de me arrumar bem. Às vezes era difícil conciliar meu trabalho e estudos com meu gosto pessoal por moda. Eles eram meio que conflitantes. Mas na maior parte das vezes eu gostava por poder variar os estilos.

— Amor, tá viva ainda? – ouvi a voz de Karina do outro lado da porta. Deixei que ela entrasse em meu quarto.

— Estou! Só estava acabando de me trocar... – comentei sorrindo.
— Uau! Está gatíssima! Vai arrasar hoje com as gatinhas! – ela piscou pra mim.

— É... – sorri de canto. Se ela soubesse que era uma gatona que eu queria conquistar... Eu planejava contar para Karina sobre ela, mas eu tinha certeza de que logo que abrisse a boca seriam horas conversando sobre o assunto. Ela iria querer saber de tudo, opinar, e capaz de ela mesma mandar mensagem para a loira só para ver minha reação; E como ela estava tão animada para sair, resolvi que não era o momento para aquilo.

— Mas vamos, já faz mais de uma hora que marquei com o Marcelo, ele deve estar cansado de tanto esperar. – a ruiva foi se encaminhando para a porta.

            Saímos de casa rumo ao metrô da linha amarela. Eu estava morando em Higienópolis, e eram apenas alguns quarteirões até a linha de metrô. Eu estava sem carro e Karina não dirigia, mas não me incomodava tanto em pegar transporte público, ainda mais após o horário de rush. A boate que iríamos chamava Bubu Lounge, e pelo o que Karina me disse era um local GLS, e haveria montes e montes de meninas. Eu estava realmente animada para conhecer a casa, e quanto mais nos aproximávamos mais eu ficava ansiosa. Estava sentindo que aquela seria uma ótima noite. A boate ficava em Pinheiros, um dos melhores bairros de São Paulo.

Descemos do metrô e enquanto esperávamos na esquina da rua da casa de Marcelo, eu ficava observando as coisas ao meu redor. Havia um bar do outro lado da rua, várias casas muito bonitas, uma padaria... Do outro lado havia uma avenida, de frente para onde estávamos, e estava movimentada. Eu olhava constantemente no relógio, receosa de ficarmos ambas ali sozinhas esperando por ele, de noite. De repente, algo me chamou a atenção. Olhei na direção da avenida, observando uma moça de costas. Era alta, loira e completamente linda. Sua roupa me chamara a atenção... Calça justa, delineando bem suas pernas, botas pretas de cano alto... Eu sempre achei tão sexy esse tipo de bota! E ela usava um blazer preto também, que brilhava conforme as luzes dos carros a atingiam.

Senti uma sensação de deja vu, e logo entendi o porquê. Um carro parou do lado contrário da onde ela estava, obrigando-a a se virar de frente, e só então eu divisei Anastácia. Ela olhou para mim, demorou-se alguns segundos, e eu não consegui esboçar reação nenhuma a não ser arregalar os olhos e abrir a boca. Por baixo do blazer ela usava uma blusa vermelha com um enorme decote entre os seios, e apesar disso, continuava extremamente elegante. E estonteantemente sexy. Ela abriu um enorme sorriso em minha direção, e enquanto ela caminhava os poucos passos até o carro senti como se desfilasse para mim. E tão rápido ela desviou seu olhar, deu a volta no carro e entrou pelo lado do passageiro. Tão perto... E ao mesmo tempo tão longe! Ela não me olhou mais, ainda que pudesse caso quisesse, só olhando pela janela. O carro deu partida e ela se foi.

— Leona! – o grito no meu ouvido e o puxão no meu braço me fizeram despertar para a realidade novamente. Olhei assustada para a ruiva enfurecida que me puxara e um moreno surpreso com a situação. — Eu falei vamos embora! Tá querendo ser assaltada, é? – ela bufou, começando a andar, para que fizéssemos o mesmo.

— Desculpa, eu fiquei perdida em pensamentos... – comentei, sem conseguir parar de pensar na cena que eu acabara de presenciar.
            Não preciso nem dizer que a partir daquele momento minha noite estava terminada, não é? Por mais que eu tentasse dançar no ritmo da música, não conseguia tirar a Anastácia de meus pensamentos. Com quem ela estaria? Onde estaria indo? Por que eu a encontrara ali? Às vezes a gente acha que o universo conspira ao nosso favor, mas às vezes a impressão é exatamente contrária. Encostada na parede da boate eu via minha amiga descer até o chão, rindo junto com Marcelo, com uma latinha de cerveja em mãos. Olhei para o meu próprio copo com vodka e energético e tomei mais um gole. Quando ela olhou pra mim forcei um sorriso, dançando um pouco. Mas para minha sorte Karina já estava bêbada e não prestava atenção no que eu estava fazendo. Quando me dei conta, uma moça linda estava ao meu lado, perguntando-me se eu estava sozinha. Advinha? Sim, ela era loira, mas devia ter a minha idade mais ou menos. Olhei bem pra ela... Realmente, era linda... Não era exatamente quem eu queria, mas...

            Antes que eu pudesse completar meu pensamento, a moça segurou em minha cintura, prensando-me na parede e aproximou-se, beijando meus lábios intensamente. Sorri, e retribui o beijo. Por que não? Mas na metade do caminho percebi meu erro. Rapidamente troquei de lugar, deixando-a encostada na parede, e voltei a colar meus lábios nos dela. Coloquei uma das mãos em sua nuca, arranhando de leve, e entrelacei meus dedos nos fios loiros, puxando-os com um pouquinho de força, até que ela colocasse a cabeça para trás. Em minha mente outra cena se desenrolava, com outra loira em meus braços, e era o que estava me movendo naquela noite. Voltei a passar minhas mãos pela cintura dela, sorrindo em seguida e dando selinhos em seus lábios. A garota sorria, tentando voltar a me beijar, mas eu gentilmente a afastei. Para ser mais convincente, tomei mais um gole da bebida e fui dançar ao lado de Marcelo.

            Quem eu estava querendo enganar? Eu estava irritada, só não sabia se de ciúmes ou de inveja de quem quer que estivesse naquele carro com Anastácia. Talvez um pouco dos dois. Voltamos ao bar e eu peguei mais um copo de energético com vodka, e continuei bebendo, enquanto imagens dela vestida daquele jeito voltavam à minha mente. Após uns três copos eu já estava meio tonta e alegre, então não foi difícil me soltar um pouco e conseguir relaxar. Para falar a verdade, eu odiava perder o controle das coisas, da situação... Por isso eu sempre soube meu limite para bebida, poucas vezes fiquei bêbada. Mas naquele dia eu já não me importava, era exatamente aquilo que eu queria: relaxar um pouco.

            Saímos da boate quase cinco horas da manhã. Estava amanhecendo. Conforme andávamos pelas poucas ruas até o metrô podíamos ver as pessoas começando seu dia, indo aos lugares, fazendo exercícios, passeando com o cachorro, comprando pão na padaria... E nós três voltando acabados da noitada. Marcelo logo ficou em sua casa, já que morava ali perto, e eu e Karina nos separamos. Eu pegava a linha amarela e ela passava para a vermelha. Cheguei em casa com muita dor nos pés, um pouco de dor de cabeça e uma vontade gigantesca de me jogar na cama e nunca mais sair de lá. Conforme me despia das roupas do dia anterior, torci o nariz, eu fedia a cigarro, bebida e outros cheiros ruins. Ia tudo para o cesto no banheiro. Eu precisava de um bom banho, mas cansada do jeito que estava... Coloquei a primeira camisola que eu achei e me joguei na cama. Peguei o celular para colocar para despertar mais tarde naquele domingo e só então percebi que havia uma mensagem nova.

“Espero que a sua noite tenha sido tão divertida quanto a minha... ;)” Foi exatamente essa mensagem que me fez querer jogar o celular na parede! Fiquei imaginando o quão boa deveria ter sido... Respirei fundo, tentando trazer um pouco de razão para a minha cabeça... Ela só está querendo me provocar... Só isso... “Ah, se foi... Mas garanto que se divertiria muito mais caso estivesse comigo...” Respondi com um sorriso no rosto. “humm precisa de um pouco mais para me interessar.” Fechei a cara ao ler o que ela escrevera. Eu não estava em condições de elaborar muito minhas cantadas... Mas respirei fundo e respondi de modo que achei que ela fosse gostar. “Eu não te deixaria dormir enquanto não te fizesse enlouquecer de prazer.” Demorou poucos segundos até a próxima mensagem. “Se pudesse ver como eu estou agora, você que iria enlouquecer. Boa noite, garota, até uma próxima.” Soltei um grunhido de frustração. Ela estava brincando com a minha cara, não é? Mas não iria ficar assim... “Eu não vou apenas ver, como vou tocar, beijar, e comer.” Apertei o botão de enviar e aí não tinha mais volta. Não era isso que ela queria? Esperei ansiosa pela resposta, que não tardou a vir. “... agora fui eu que tive um orgasmo... rs...” Eu comecei a rir, relembrando a primeira vez que a vi e o nosso primeiro diálogo. Mas se ela queria é brincar era isso o que ela teria... “Boa noite, loira. Inté uma próxima.” Não recebi outra mensagem, e sorri satisfeita. Certeza que ela esperava uma nova investida da minha parte. Sorri, relaxando na cama, e então dormi.

            Só fui acordar quase cinco horas da tarde. E só então percebi como eu estava faminta. Fui até a geladeira e peguei uma caixa de lasanha para dois. Coloquei no micro-ondas e abri uma latinha de coca-cola. Sentei na sala, em frente à TV, e fiquei almoçando, ou seria jantando? Enquanto assistia a algum programa que estava passando. Fui olhar minhas mensagens no celular e tinha várias da Karina, perguntando se eu tinha morrido, pois passara o dia todo sumida. Respondi rapidamente que tinha capotado e que só tinha levantado naquele momento. Voltei a olhar as mensagens que eu trocara com Anastácia naquela manhã e quase me afoguei na privada de tanta vergonha! Okay que eu não era nenhuma santinha, mas eu mal a conhecia! Não era acostumada a falar tantas bobagens sobre sexo com quase desconhecidos... Segurei a vontade de mandar uma mensagem para ela e deixei o celular de lado.

            Mais tarde resolvi pintar e tirei de algumas caixas meus pincéis e tintas. Peguei uma das telas em branco que eu havia levado e coloquei no cavalete. Como eu sempre estava pintando alguma coisa, essas foram as primeiras coisas que eu levei para o apartamento. Forrei o chão do segundo quarto com jornal velho, liguei o rádio e comecei a pintar. Ainda não fazia muita ideia do que eu ia desenhar, mas comecei a ir pincelando com as cores na tela enquanto seguia o ritmo da música. Aos poucos uma rosa foi surgindo, em meio a outras rosas em um jardim. E dentre as rosas, apenas um girassol, bem amarelo, bem bonito. Não vi as horas passarem, quando me dei conta já era quase dez da noite. Voltei para a cozinha e fui fazer um lanche para mim, enquanto ia dançando junto com a música, quando o apito do meu celular fez meu coração pular no peito. Sai correndo pegar o aparelho em cima da mesa, e minhas suspeitas se confirmaram. Sorri instantaneamente. Mas logo que abri a mensagem fiquei de queixo caído, ficando vermelha logo em seguida. Sem saber se sentia tesão ou raiva.

— Filha da puta! – falei em voz alta, batendo o celular em cima da bancada da cozinha, ainda um pouco sem ar pela surpresa do que eu acabara de ver.


Anastácia tinha me mandado uma foto dela. Deitada na cama. Enrolada no lençol. Com um sorriso sacana no rosto. Quase dava para ver os seios dela. E embaixo, escrito “Você quer brincar, não quer? Isso é o que você perde, quando tenta ganhar.”

Um comentário

  1. Aiii não acredito que meu comentário não foi aqui, vou tentar enviá-lo novamente! Li lá no wattpad, mas vou deixar comentário por aqui! Adoreeei capítulo, lógico, os elementos: Higienópolis, Linha Amarela, Pinheiros, Bubu...deixa o conto tão próximo, ameeei isso! E essa Anastácia hein? Que ousadaaaaa, mas a Leo também não fica atrás rsrs

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