Conto - Posição: Frango Assado


Posição: Frango Assado

Faz quatro domingos que só faço a mesma posição: frango assado. Sim, é exatamente isso que você leu. Já quis trocar várias vezes, cansei de sempre ficar na mesma posição, os joelhos doem, o corpo fica dormente... Mas a maldita loira insiste sempre na mesma. Se eu pudesse, iria sugerir quem sabe a posição peixinho, ou quem sabe a posição capivara... A vaca na brasa... Até mesmo a posição da linguiça! (Sim, eu, que não gosto de linguiça, iria me sujeitar a isso só por causa dela). Mas não, a bendita tem que gostar tanto assim do frango assado! Não está entendendo nada, não é? Antes que comece a pensar que sou uma depravada (se já não o acha), irei explicar direitinho o que vem ocorrendo em minha vida. 

Tudo começou há mais um menos um mês. Estava eu, numa bela manhã de domingo de sol, sentada na minha casa quando um amigo meu disse que vinha colocar o papo em dia. Conhecendo o Fábio tão bem como eu conheço, sabia que isso significava que ele iria almoçar aqui. Sem ter nada de comestível em casa, resolvi comprar um frango assado, que ambos gostávamos. Liguei no "Frango na Brasa" e deixei um reservado, lá para o meio-dia. Dado o horário, peguei o carro e saí de casa, indo até o estabelecimento comercial. Parei em frente e desci. Era em uma casa simples, e do lado de fora havia um banner fazendo propaganda de uma promoção e do outro lado, na parede, havia uma daquelas máquinas de frango assado nas roletas. 

          Entrei e cumprimentei o dono, dei o meu nome, "Marta" e esperei que ele checasse na agenda e então me entregasse o pedido. Saí com a sacola na mão, com um frango assado, duas caixinhas com batatas assadas e um saquinho de farofa. Já na porta, percebi um carro prata parado na porta. Devia ser um Ecosport. Atravessei a rua, entrei no meu carro, coitado, um velho fusca vermelho, e coloquei a sacola no banco do carona. Inclinei-me para abrir a janela do banco do carona, já que meu carro superincrível não tinha ar-condicionado, e foi então, quando o vidro já estava completamente abaixado, que minha vida mudou. Recém-saída do local estava uma loira estonteante, alta, cabelos compridos até as costas, calça jeans e uma regata, entrando naquele carro. Meus olhos vidraram naquela miragem que eu estava vendo. Infelizmente, nem pude identificar seu rosto, dada a distância e o fato de ter entrado rapidamente no veículo. Logo o carro deu partida e ela foi embora. 

Finalmente olhando para a minha sacola, ainda meio atrapalhada e sem saber o que fazer, lembrei que havia esquecido a Coca-Cola 2 litros que eu também havia pedido. Saí do carro e voltei para o estabelecimento. Logo que encontrei com o dono, um moço alto e magricelo já de meia-idade, ele foi até a geladeira para pegar o refrigerante e eu não pude deixar de comentar:

— O senhor viu aquele carro que estava parado aqui em frente? 

— Claro! Lindo, não é? Todo domingo ele fica parado aí. – homens e seus carros... 

— Ah sim, lindo mesmo. Todo domingo, o senhor disse? – perguntei sorrindo.

— Uhum. A dona Maristela é nossa cliente regular. 

— Entendi. Bem, agora que peguei o refrigerante vou indo. Obrigada. – e mentalmente acrescentei que ele não fazia ideia do quanto havia me ajudado.

Voltei para o carro e no trajeto de volta para casa não pude deixar de pensar no que ele havia me dito. A loira estonteante tinha um nome, Maristela, e era cliente regular, significava que se caso eu voltasse no domingo seguinte, ela estaria lá. Sem conseguir conter minha alegria, já comecei a arquitetar o meu próximo plano. No domingo seguinte, mesmo sem o Fábio almoçar em casa, eu encomendei um frango para o mesmo horário, e fui até o estabelecimento. Logo que cheguei o carro já estava lá. Adentrei no local e achei estranho que não a vi ali dentro, talvez estivesse nos fundos ou não sei... Comprei o frango e voltei para o meu pobre carrinho, novamente parado do outro lado da rua. Não demorou mais que dez minutos e ela surgiu novamente. Dessa vez eu estava sentada no banco do passageiro, para ter uma visão melhor. De óculos escuros, ela tinha um sorriso lindo, uma boca carnuda em um batom de cor escura, quase um marrom. 

Dessa vez ela usava um vestido comprido florido, de tom azulado, de alças. Parecia ainda mais alta e esbelta. E novamente, entrou no carro, com a sacola com o que acabara de comprar. Em poucos minutos ela já havia ido embora, e eu demorei algum tempo para sair dali. Estava completamente maravilhada com aquela mulher, e supercuriosa para saber mais sobre ela e sua vida. Será que seria casada? Parecia rica... Será que tinha filhos? De que signo seria? Teria uma voz doce ou rouca, sarcástica ou adorável e gentil? Eu precisava descobrir... Foi então, naquele momento, que me decidi. Eu iria colocar em prática o meu plano "Posição: frango assado". A partir de então nos dois domingos seguintes eu passei a ir comer frango, e ficar do outro lado da rua esperando que ela saísse. 

Claro que eu comia frango feito de forma diferente durante a semana também, por isso eu já estava enjoada de tanto frango! E você me indaga por que eu comprava? Se poderia apenas estacionar o carro ali? Porque eu alimentava secretamente o desejo de encontrar com ela lá dentro, senti-la tão pertinho de mim, olhar em seus olhos... Ouvir sua voz... Mas isso ainda não havia acontecido, para a minha tristeza. Foi então que, como eu disse, após passar seis domingos sentada no carro esperando para vê-la, contando desde a primeira vez, alguma coisa aconteceu. Ela saiu, como sempre, do estabelecimento, e foi até o carro dela. Estava linda! Usava um shorts jeans rasgado e uma bata vermelha, sapatilhas nos pés e sem óculos dessa vez. Deixou a bolsa dentro do carro, mas, ao invés de entrar, fechou a porta e se virou em minha direção. 

O pânico tomou conta do meu rosto, e eu quase fechei a janela rapidamente. O que de nada adiantaria, já que meu carro de pobre não tinha vidros escuros. Seria uma situação ainda mais ridícula. Tentei ficar calma, percebendo pelo canto dos olhos que ela se aproximava, após olhar para os lados para se certificar de que não estava vindo carro. Deu alguns passos e estava no meu velho e vermelho fusca. Ela sorriu, e se inclinou, debruçando-se sobre a janela do meu carro, e eu não tive como não encará-la. Meu Deus! Acho que morri com aquele sorriso! Os olhos eram azuis intensos, e ela estava com uma das sobrancelhas arqueadas.

— A moça perdeu alguma coisa no meu carro? – eu não estava preparada para voz tão sedutora...

— O quê? Desculpe, não entendi... – e ela fez uma expressão surpresa, depois fez uma careta e colocou a cabeça de lado, ainda me encarando.

— Tem certeza que a moça vai fingir que não esteve aqui nos últimos domingos observando meu carro?

— Eu só vim comprar frango, senhora. – apontei a sacola, quase querendo me bater pela resposta idiota!

— Senhora? Pareço tão velha assim? – ela olhou rapidamente no espelho do meu fusca, meio sujo e rachadinho. Ajeitou os cabelos, e então voltou olhando pra mim. Eu gaguejava para responder.

— Ló... Lógico que não... Você... É linda... – o sorriso se alargou em seu rosto e eu não tive dúvidas de como eu era idiota. Depois dessa dei realmente um tapa em minha testa.

— Vai me dizer que a moça também é afim de uns tapinhas, uns chicotes... – provavelmente meu rosto ficou completamente vermelho e eu não tive coragem de olhar nos olhos dela. Isso só fez com que ela soltasse uma gargalhada gostosa, jogando a cabeça para trás, voltando a me olhar logo em seguida. — É brincadeira...

— Ah... – suspirei aliviada.

— Mas se quiser, só passar lá em casa mais tarde... – ela deu uma piscadela e meu coração acelerou como se estivesse competindo na Fórmula 1. Novamente ela soltou uma gargalhada, completamente divertida com a situação. — Relaxa, garota, estou só brincando. Mas é engraçado te ver entrando em pânico...

— É que... Você me surpreendeu... Eu só... Não esperava que você me pegasse na minha posição fran... – parei de falar de repente. Dessa vez fiquei branca como porcelana. Só faltava, né Marta? Pelo amor de Deus! Falar o nome ridículo dessa operação para a mulher gatíssima que está ao seu lado!

— O que disse? Posição? – ela ficou interessada, inclinando-se mais, sorrindo. Percebi covinhas nos cantos da boca. Ela era tão linda! E eu tão idiota!

— Esquece, besteira minha, idiotice...

— Eu quero saber... Se não me disser, eu vou embora e nunca mais volto a comprar frango aqui. – ela disse incisiva.

— Você é má, sabia? – bufei.

— Sabia. – ela arqueou a sobrancelha, e isso me fez arrepiar inteira. Olhei para o alto, bufando novamente, respirei fundo, passei as mãos pelos meus cabelos castanhos e crespos, tentando tirar alguns fios do rosto, e voltei a olhar para ela.

— Posição frango assado.

            Ela olhou-me por um segundo, surpresa, e então desatou a rir. E eu encostei a cabeça no encosto do carro.

— Eu sei, pode falar... Ridículo, não é?

— Sim... Mas... Por que... Esse nome? – ela ria enquanto falava.

— Porque eu venho aqui todo domingo te esperar para comprar frango. Daí secretamente nomeei minha missão assim.

— Ahá! Eu estava certa, acabou de admitir que você vem por minha causa! – ela tinha um sorriso triunfante nos lábios vermelhos.

— Droga! – bati a mão na perna. — Okay, você venceu. É. Eu te vi há mais ou menos um mês atrás e fiquei fascinada... E eu gostaria de saber mais de você, mas nunca nos esbarramos... E você vem tão rápido... Então pensei em ficar aqui esperando...

— Você é tão boba, sabia? – ela sorriu, ajeitando-se, preparando-se para levantar. — Era só ter esperado em frente ao meu carro e puxado conversa. Uma moça linda como você com certeza chamaria minha atenção. – foi a minha vez de ficar surpresa. E muda.

— E-Eu? – perguntei de olhos arregalados.

— Que acha de vir almoçar comigo? Infelizmente o cardápio é o mesmo...

— Mas você nem sabe o meu nome, como vai me convidar para ir até sua casa? E se eu for uma ladra?

— Se fosse uma ladra, Marta... – olhei-a de boca aberta e ela riu. — Eu perguntei qual o nome da moça morena de cabelo volumoso que sempre vem comprar frango ao meio-dia. Enfim, se você fosse uma ladra, já teria roubado o meu carro.

— Bom argumento.

— Então, aceita ou não? – ela se levantou, segurou na maçaneta do carro e abriu minha porta, estendendo a mão para me ajudar a sair.

— Claro que eu aceito! – fechei a porta do fusca, pegando antes minha bolsa e a sacolinha do frango, e então ela se aproximou e disse, antes de segurar em minha mão.

— O cardápio pode ser o mesmo, mas os jeitos de comer podem variar... Pode ter certeza que hoje você vai experimentar de verdade como pode ser gostosa a posição frango assado. – e percebendo como eu ficara vermelha e sem fala, ela voltou a gargalhar, segurando em minha cintura, enquanto andávamos até o carro dela.



3 comentários

  1. Você nao tem noção da minha vontade de frango assado depois de ler isso! Ai ai :9 adorei o conto, Laris. Diferente e divertido. Adorei o contraste das personalidades. Não preciso dizer que me idetifiquei com a Marta, né? Ok, eu não digo. Shiii... e Maristela... ai ai. Vou parar por aqui. Resumindo, muito gostoso de ler :)

    Aly

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    1. Hahahahahaha morta, imagino que sim, ainda mais se ele vier com uma moça como a Maristela. Fico super feliz que tenha gostado. Hahaha quem não se identifica com a Marta? :P Sério mesmo que eu queria ter conhecido a Maristela, ainda que tenha sido um conto pequeno xD Obrigada pelo comentário, adoro saber que leu e gostou *-*

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  2. Lariiis, demorei um tico para aparecer aqui, mas apareci! Amei o texto, super divertido e flui que é uma beleza! Você deveria escrever mais textos de comédia, pois mandou muito bem! A melhor parte é a Marta sem jeito, sério kkkkkkk, tô rindo até agora! Eu adorei, está de parabéns, beijinhos!

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