Conto - O Canto Mais Escuro


Ganhou o prêmio literário "Darcy Ribeiro" em 1° lugar na categoria Conto - Adulto na 14ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto - 2014.
 N/A: Escrevi esse conto para o concurso literário da Feira do Livro, baseado no tema "Seguir em frente sem medo de ser feliz", e ele ganhou em 1° lugar em âmbito nacional. Resolvi postar, por ter gostado muito dele. Espero que gostem! Boa leitura!
http://www.feiradolivroribeirao.com.br/noticias/cerimonia-premia-21-escritores-em-concurso-literario-da/

O Canto Mais Escuro

São 4:30 e ainda está escuro lá fora. Levanto da cama quente, escovo os dentes brancos e rumo à cozinha aprontar o almoço. As crianças dormem tranquilamente no quarto pequeno. Enquanto as horas voam no relógio, engulo um café preto e meio requentado entre uma peça e outra de roupa. Todos os dias a mesma rotina. Logo antes do nascer do sol, já espero o ônibus das 6 da manhã, com as senhoras segurando a bolsa junto ao corpo, com medo até da sombra. Claro. Onde já se viu? Um assalto em cada esquina, uma morte em cada canto. Como sempre, a lotação me impede de sentar, o suor escorre no rosto, abafado, cidade quente como nunca se viu. Rostos animados, rostos apreensivos, rostos ansiosos, com o dia de trabalho que se estende à nossa frente. No balanço da condução os olhos vagueiam pelas ruas, avenidas, pelos prédios altos do Leblon, os muros pichados e a multidão seguindo. Trabalho digno de uma população cinza. Será?

A cada dia uma casa de madame diferente, ganhando diariamente, limpando o negrume da sujeira produzida pelo leite. Arrumando a bagunça no embalo da batucada. A cada batida um novo canto; em cada canto uma cor; e na mais escura dor, a revolta no canto do cantador. Saco vazio não para em pé, então me sento na cozinha, o qual me foi decidido ser canto exclusivo para mim. Apesar da fome, demoro-me um pouco no engolir da comida, sentindo a dor e o inchaço das pernas já cansadas. Um pretinho adormecido para não deixar amolecer, e de volta à arrumação. Lavo janela, lavo parede, lavo o banheiro, lavo a alma. Esfrego o chão, esfrego os tacos, esfrego os sapatos. Deixo tudo brilhando para o gosto da patroa, menos os olhos, que já opacos demonstram o cansaço das rugas. No coração, a luta interna e sombria. Cada dia uma casa diferente. Em cada casa um ritmo distinto. Às vezes é batucada, às vezes é samba, e às vezes é o do coração. Trocando de roupa, com o dinheiro do dia em mãos, despeço da patroa e desço à rua, apressada com medo de perder o ônibus. 

Está escurecendo aqui fora, e todos seguram a bolsa contra o peito. O medo assola a cidade, é verdade. Mas o excesso de medo encardido incomoda. A lotação me impede de sentar, mas a bondade de um jovem dá lugar para o meu sorriso agradecido. Nas ruas, o medo se esconde atrás de cada esquina, mas eu me recuso a ignorar. A condução segue sem rumo por entre os buracos no asfalto, os rostos mostram a miscigenação do nosso país. E no fim, apesar dos pesares, o riso rola solto, e todos me encaram. Ninguém entende. A cidade está linda, a noite está quente e o suor pingando da testa. Com os olhos vagueando, começo a pensar. Em nosso país existem vários cantos, e de cada canto saem milhares de pessoas diferentes. Em cada pessoa há uma cor, e em cada cor há uma luta. E em cada luta, há um canto. O meu? É o mais escuro.

No balanço da condução marchinhas tomam os ouvidos dos mais novos. O riso frouxo escorre de meus lábios, muito cansados para protestar. Mas dentro da cabeça persiste a dúvida: por que somos lembradas apenas como a cor do carnaval? O samba no pé, o sorriso nos lábios, os cabelos enrolados e os corpos seminus. Quem são elas? Quem sou eu? Olho para minhas mãos calejadas, e a batucada atinge o ego. As mãos encardidas do trabalho cinza, essas mesmas mãos que ajudaram a construir nossa nação, são mãos obscuras que se escondem nos cantos aos olhos brancos.

Fora de época, meus cabelos são chamados de bombril; fora de época, meus Santos são esquecidos; fora de época, não sou bonita de se olhar; fora de época, não sou digna de respeito. A revolta invade o peito feito piche que se espalha no asfalto, e se eu apenas pudesse... Se eu lhes mostrasse... Os olhos trazem a tristeza da vida sofrida. Os anos que se acumulam nas costas e nas pernas, a pobreza que me rouba o pão da boca para dar aos meus filhos, o embalo que me faz seguir em frente todos os dias, o cansaço que me faz deitar e não querer levantar...

 Mas amanhã às 4:30, ainda estará escuro lá fora. Estará escuro aqui dentro. Levantarei da cama e escovarei os dentes brancos e rumarei à cozinha para aprontar o almoço. O riso branco aparece em meus olhos cor da noite, enquanto o canto sai por dentre meus lábios escuros. Canto que me desperta. Canto que me orgulha, canto que me faz feliz, canto que me faz forte. Meu ponto chegou, tenho que descer. E enquanto o dia raiar, eu rezarei para fazer parte dessa massa cinza que caminha e canta e trabalha.

São algumas quadras até a casa simples e humilde. Meus pulmões se enchem de ar, respirando finalmente, preparo-me mentalmente para a terceira parte da jornada. Chegando em casa, as crianças correm ao meu encontro, beijando-me o rosto e gritando e correndo e badernando e eu já não aguento mais... Mas com um sorriso nos lábios. Lavo as crianças, lavo a cozinha, lavo a louça. Arrumo a sala, arrumo os quartos, arrumo a janta. Ajudo a fazer a lição. Mato a barata, mato a sede, mato um leão por dia. Coloco as crianças na cama, um beijo de boa noite, e um carinho de quem doa tudo o que tem para a felicidade de quem se ama.


            Em meu quarto, finalmente um tempo para mim mesma. Olho-me no espelho, e o que vejo? A velhice deteriora meu corpo, meu rosto, minha pele. Minhas dores consomem meu ânimo, e eu só quero deitar. Forço-me a olhar no espelho. E apesar das dores, apesar do cansaço, apesar da pobreza, o que permanece é o sorriso estampado no rosto. Esse sorriso que insiste em aparecer, e que ninguém entende. Essa força que vem de dentro, e que ninguém pode tirar de mim. Antes de deitar, ajoelho-me no chão, prostrada diante da cama, agradeço por mais um dia de luta. Agradeço por uma vida digna. Agradeço pela saúde da minha família. E agradeço pela fé inabalável para seguir em frente. Todos os dias.

Um comentário

  1. Prêmio muitíssimo merecido! Suas palavras trazem a verdade da luta de uma minoria, mas também trazem de uma forma sutil o valor e a dignidade do trabalho honesto. Fiquei encantada pelo seu modo de escrever, extremamente descritivo. A abordagem as cores, algumas sentenças ambíguas, como em o "Negrume produzido pelo leite." realmente gostei muito.
    Minhas mais sinceras parabenizações pela criatividade, e meu agradecimento por colocar suas palavras em acesso de todos.
    Ps: Ótimo blog também.
    Um abraço.

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