Conto - Rompendo Grilhões


Rompendo Grilhões

Era sempre o mesmo material para passar os dias a salvo: fones de ouvido, fita adesiva, viseira, correntes, algemas. Era sempre a mesma rotina, ninguém reclamava. Aliás, algumas pessoas o faziam, mas nunca mais eram vistas. Acho que desistiam e percebiam que aquilo realmente era o melhor para todos. Para quê reclamar? Acordar, tomar café, escovar os dentes, colocar o uniforme colorido, ir para a escola, almoçar, trocar de roupa, ir trabalhar, voltar para a casa, jantar, dormir. Só era diferente aos finais de semana, durante os quais podíamos ir para alguns clubes destinados a adolescentes.

Éramos condicionados a obedecer e nos calar, como todo bom cidadão deve fazer. Aprendíamos desde criança. As escolas não eram tão rígidas, não precisávamos nos matar de estudar, já sabíamos que iríamos passar. Em casa, gaiolas garantiam nossa segurança. Nas rádios, músicas atuais; nos jornais, anunciavam que o país crescia; na internet, todos podiam se expressar; na tv, já era fato que não havia mais espaço para preconceito e intolerância. Caminhávamos rumo à perfeição da condição humana: paz interior, amor ao próximo, felicidade, saúde, educação, segurança. O que poderia haver de errado?

            Naquele dia, eu esperava paciente na fila da cantina, para pegar o lanche, não podía levar de casa. De repente, ouvi gritos e protestos. Os adolescentes, com seus fones de ouvido coloridos, nem prestaram atenção. Foi então que me dei conta: eu havia esquecido os meus fones. Voltei-me para ver o que acontecia de tão extraordinário: uma garota protestava, gritando, jogando folhetos, fazendo barulho. Logo, dois homens, um de cada lado, seguraram-na, arrastando-a para fora, enquanto ela esperneava. Continuou gritando, mas percebeu que seu protesto era em vão, já que ninguém prestava atenção.
  
Pensou em desistir e calou-se, enquanto lágrimas desciam-lhe pelos olhos escuros, que repentinamente cruzaram-se com os meus. Percebi algo de diferente, um novo brilho. Gritou, desta vez em minha direção, falando diretamente comigo. Suas palavras entraram em minha consciência, enquanto eles viravam um corredor e desapareciam na escuridão. Pela primeira vez, processava palavras como “Pensar, agir, tentar, lutar.” Fôra o que eu conseguira ouvir.

Alguém lá atrás gritou para que eu andasse logo. Peguei meu salgado e sentei-me à mesa, ao lado de minhas amigas. Elas falavam sobre o garoto mais bonito do colégio, o mais gostoso. Olhei para o lado e outras garotas conversavam sobre a nova tendência da moda em Paris, Grécia, Londres. Outras duas passaram, comentando sobre como precisavam perder peso. Pela primeira vez, aquilo tudo pareceu estranho demais aos meus ouvidos. A comida pareceu sem gosto, as conversas sem sentido. O que estaria acontecendo comigo?

            Aulas, voltar para a casa, almoçar, trocar de roupa. Colocar a fita adesiva sobre os lábios. Olhei-me no espelho e, por um momento, numa fração de segundo, pensei que talvez aquela fita não pertencesse ao meu corpo. Pensar? De onde tinha vindo aquilo? Não sabia, mas estava se tornando meu hobby preferido. Um trabalhador não deve falar. Recoloquei a fita na boca, peguei minha bolsa e rumei para o trabalho, como todos os dias. À noite, voltando do trabalho, de ônibus, colocava a viseira, para que eu não olhasse para os lados. O que acontecia ao redor só me distrairia, por isso necessitava continuar cega para o que acontecia fora da minha vida. Não era problema meu.

Acordar, tomar café, colocar o uniforme, ir para a escola. Esquecera a viseira! E agora? Não faria mal, um dia só sem ela não iria me prejudicar. Andando depressa, com medo de perder a primeira aula, vi algo encolhido no chão, no canto do corredor.

Estranho... Se fosse um dia qualquer, teria passado sem parar. Voltei-me, percebendo aqueles mesmos olhos grandes e negros, perdidos. O corpo, com marcas vermelhas e roxas, o rosto cansado, os lábios cortados. Estendeu o braço. Apenas sentei-me ao seu lado.

            Sem a viseira, sem o fone de ouvido, sem as algemas, nem a fita adesiva, pude ver os adolescentes passando, como robôs, desfrutando de uma aparente calma, alienados ao que acontecia em volta: políticos, política, polícia, milícia. A ordem e o caos, inacreditavelmente andando juntos, lado a lado. Pela primeira vez eu via, entendia. Pela primeira vez eu sentia. Aquele não era o meu lugar. O mundo novo diante dos meus olhos me fez despertar. Meu sangue voltou a correr rápido pelas veias e uma excitação tomou conta do meu corpo. Eu estava... Viva.

            Um sorriso instalou-se no rosto da minha nova amiga. Levantamos juntas e começamos a gritar. Era frustrante que ninguém prestasse atenção em nós, mas ao menos algumas pessoas começavam a tirar os fones dos ouvidos, outras, as viseiras. A animação foi tomando conta, afinal, não estava tudo perdido. Mas logo os golpes vieram. Um nos braços, outro nas pernas e um terceiro na cabeça. Não vi o que aconteceu. Apenas senti o impacto do meu corpo batendo no chão frio.

            Tudo doía, tudo machucava. Sangrava. Mas eu não podia mais voltar atrás. Era difícil. Era um longo caminho. Olhei para minha companheira, que sorria, ao meu lado no chão. Estávamos na mesma situação, mas em seu olhar havia algo a mais. Os machucados não mais importavam. Tinham me deixado mais forte. Eu não estava mais cega. Não estava mais muda, surda, presa. Alienada. Eu não era mais um do gado se encaminhando para o abate. 

Um comentário

  1. Parabéns Laris, ótimo conto.
    Precisamos de menos alienação e mais ação.
    Rumo ao rompimento dos grilhões, na tentativa de uma sociedade menos intolerante.

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