Conto - Depois Daquele Toque


Eu sentia a brisa do fim de tarde bater em meu rosto, enquanto assistia ao pôr do sol na varanda de casa. Meus olhos fitavam a paisagem á frente, sabendo que dali a pouco viria uma chuva fria, como já era de se esperar. O cansaço me consumia. Tinha passado a semana toda trabalhando, e aquela folga de sexta-feira era um descanso abençoado.  Havia dias que eu não conseguia trabalhar direito, muito menos dormir, os fantasmas de minhas lembranças assombravam-me toda vez que tentava fechar os olhos, e isso começara a acontecer até quando os mantinha abertos. Flashes apareciam em minha mente, assustando-me, trazendo o sentimento de culpa outra vez.

Os gritos dela em minha mente eram cada vez mais constantes, lembrando-me que, apesar de todos os esforços, eu não conseguira impedir, fora incapaz: Não! Eles não podem levá-la! Por favor, não deixe que eles a levem! Não! Daniela batia com as mãos espalmadas na porta da sala, enquanto gritava desesperadamente. Ouvia-se o barulho de um carro dando partida e arrancando rua afora. Seus gritos desesperados ecoavam pela casa. Eu tentava segurar minha esposa, acalmá-la, mas era tudo em vão.

Lembrava-me de toda a dor e desespero que sentira naquela madrugada, o pior dia da minha vida. Os gritos rasgavam meu coração e me ensurdeciam. Era impossível apagá-los da memória. Eu dizia a ela, enquanto estávamos no chão da sala: Tenha calma, ela está bem, nada de mal acontecerá a ela. Tentava consolar Daniela, que chorava sem parar. Eu abafava meus gritos e escondia minhas lágrimas para não piorar a situação.

Liguei para a polícia, fiz contatos, perguntei em todo lugar, tentei de tudo para achá-la. Passaram-se dias até que os policiais conseguissem alguma pista realmente boa de quem havia levado meu bebê, conseguindo pelo menos trazer alguma esperança novamente.

Daniela ficava em frente ao berço rosa, com um coelhinho na mão. Olhava-o com ternura, enquanto lágrimas grossas escorriam de seus olhos azuis. Ela sussurrava que a encontraria, nunca desistiria, não importava o que acontecesse. Aquela cena estava gravada em minha mente. Quando a via, meu coração sangrava de dor, lágrimas embaçavam minha visão e eu perdia o chão. O que eu podia fazer para ajudar? Já havia tentado de tudo: ligado para amigos e gente da família, até contratado um detetive. Mesmo assim, eu só poderia esperar os policiais fazerem seu trabalho. Levaria dias, meses ou anos. Aquilo apertava ainda mais meu coração.

Havia dias, que altas horas da noite, eu contava histórias para a barriga de Daniela. Pegava um livro para crianças, “São Jorge e O Dragão” de Galeno Amorim, que ela adorava. Contava para ela enquanto estávamos na cama, ela passava a mão na enorme barriga, olhando-a com amor, ouvindo a história. E depois de algumas semanas, eu vi minha filha nascer: O bebê envolto em uma manta rosa chorava, seus olhinhos brilhavam e sua mãozinha segurava o meu dedo. Daniela, recostada na cama do hospital, passava a mão em sua bochechinha. Aqueles momentos eram tão perfeitos, que chegavam a ser surreais, como se fossem durar para sempre.

Minha ilusão desvaneceu-se quando constatei que nada do que eu fizesse, amenizaria sua dor. Quando Daniela chorava de madrugada, sentada no chão do quarto e eu tentava me aproximar, dizendo que eu entendia e que tudo acabaria bem, ela me afastava aos gritos. Não, eu não entendia, eu jamais poderia saber o que era ser mãe. Suas palavras me arrasavam, ela sabia exatamente como ferir-me, por saber que havíamos escolhido que ela teria o bebê, e não eu.

As brigas começaram a ser mais freqüentes. O estresse tomava conta da casa a cada dia que passava. Quando meu chefe soube o que aconteceu, ficou meio chocado e me deu logo um mês de férias, o que apenas aumentou meu desespero. Será que ele não entendia o quão difícil era manter uma família? Ter que tomar conta de tudo? Na verdade, ele entendia. Apenas ficava constrangido com a situação. Mas ficar todos os dias em casa naquela angústia estava me matando, enlouquecendo.

Ás vezes eu sentava na sala com Daniela em meu colo, acariciando seus cabelos louros enquanto ouvíamos música.  Ela olhava em meus olhos castanhos, e logos os azuis dela enchiam-se de lágrimas.  Ela dizia o quanto eu era importante em sua vida, o quanto me amava, e que sem mim ela não agüentaria tudo aquilo. E que apesar de tudo o que estava acontecendo, nós sobreviveríamos. Como eu queria acreditar naquilo, eu precisava acreditar.

No entanto, aos poucos, nossa vida desmoronava. Não tínhamos com quem contar para nos ajudar. A maioria das pessoas sempre nos disse que nosso relacionamento nunca daria certo, principalmente em momentos críticos como esse, em que um homem certamente saberia o que fazer. Nós já havíamos passado por momentos difíceis juntas, e conseguimos ultrapassar as barreiras, tudo em nome de um amor que julgávamos incondicional.

Naquela noite fria, a chuva batendo nos vidros da janela era o único barulho que se ouvia na casa, até o telefone romper com o silêncio. Eu estava na sala, quando Daniela atendeu-o. Ela começou a chorar e soltou o fone, chamando-me: Oh, Barbara!  Eu corri para junto dela, amparando-a. Seus olhos aprofundaram-se nos meus e naquele momento eu soube. Apertei-a contra meu peito, enquanto olhava para os pingos na janela. E pela primeira vez eu tive medo, medo do que seria de nós a partir dali. 

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