7 Dias Com Ela - Capítulo 7 (Final)


Capítulo 7 – Codinome Beija-Flor
           
- O que você quer aqui? Vá embora! – a mãe dela gritou, cheia de ódio no olhar.

- Hey, eu não vou embora! Quero falar com a Lisa! – disse, tentando conter minhas emoções.

- Não tem nada para falar com ela, ela não é da sua laia. – olhou-me fria, com cara de nojo.

- Quem a senhora pensa que é? Eu não vou sair daqui enquanto não falar com ela! – gritei, sem conseguir me conter.

            Lisa apareceu na porta, ofegante. Tinha saído correndo, prevendo o que aconteceria. Falou para a mãe dela deixar que ela iria conversar comigo. Jurou que ia ser rápido. Por dentro senti um alívio, pensando que tudo fosse dar certo agora. Iríamos nos acertar, colocar os pingos nos is. Como eu estava enganada!


- O que faz aqui? – disse logo que sua mãe saíra da porta. Seus olhos marrons estavam frios, e ela olhava-me com desprezo.

- Eu... Queria falar com você. Achei... Que não poderia, acabar daquela maneira. – disse, encarando o chão.

- Não temos nada para conversar. Quando vai entender? Eu não te amo! Sai do meu pé, garota! Entenda, eu gosto de homem, okay?

            Foi um choque para mim, aquelas palavras amargas cheias de veneno sendo injetadas em minhas veias. Ela falava sério? Eu não conseguia engolir aquelas palavras. Gritei:

- O quê? Como? Não posso acreditar! Deve estar brincando comigo, só pode! Você... você... – meus olhos estavam vemerlhos, prontos para chorar.

- Beatriz, chega! Não vamos ficar juntas, nunca! Esqueça! Você não é pra mim e eu não sou para você! Nunca mais quero te ver! – e dizendo isso, fechou a porta na minha cara.

            A última coisa que vi foi seus olhos cor de chocolate frios, duros e vermelhos. Senti um aperto no coração. As lágrimas começaram a cair, senti um gosto amargo na boca. Meu mundo desabara, deibaixo dos meus pés. Saí correndo em direção à praça que ficava dali a algumas ruas. Mas lá, avistei o banco em que ficávamos. Não consegui ficar ali, comecei a andar, vagar pelas ruas.

            Minha cabeça doía, latejava, a minha visão estava turva pelas lágrimas. Eu queria chorar, queria sumir, desaparecer. De repente, o céu começou a escurecer e uma ventania deixou-me com frio, mas eu não estava nem aí. Que desabasse tudo, que eu morresse, não iria me importar.

            Os trovões e raios começaram a cair lá longe, eu sempre tivera medo, mas naquela hora nada mais me importava. Eu não ligava para nada ao meu redor. Comecei a gritar, gritar e gritar, enquanto sentia a chuva gelada cair por sobre o meu corpo. Aquilo era bom, era como se o exterior quissesse se igualar ao meu interior. Sombrio, chuvoso, triste. Eu chorava, como nunca havia chorado antes.

            Foi então que começou. Minha raiva, crescendo dentro do meu peito. Sentia um ódio tremendo, ela não me amava, talvez nunca amara, e eu me iludia. Tudo havia sido um sonho? E meu futuro? Não existia? Dor. Era muito dor, eu não conseguia aguentar. Parei no meio de uma calçada e caí de joelhos, o peso era demais em minhas costas, impossível surportar.

            Eu não podia mais me segurar. Comecei a escrever e escrever e escrever coisas que eu sentia, minha vida estava negra, meus sonhos tinham morrido, era isso o que eu passava para as minhas histórias. Egoísta, sem nem pensar no que ela sentia de verdade. Transformei-a no mal que ela havia me causado, na dor e no sofrimento, como se fosse uma doença que eu não queria ter pego.

            Meu conto de fadas se transformou em um conto de horror, onde a moça frágil era eu. Passei a tentar reconstruir minha vida, mas sempre com o seu fantasma presente. E sabe o que era mais engraçado? Eu precisava daquele fantasma para sobreviver. Escrevia sobre ela, e me transformei em um fantasma para ela, perseguindo-a onde quer que ela fosse. E a fiz odiar-me, como nunca odiou ninguém em sua vida.

            Por que tudo tornara-se tão difícil? Por que tanto ódio? Tanta amargura? Eu queria entender... Então, sempre que lembrava do seu olhar... Sentia dor e mágoa e começa a chorar. Um dia, andando na praça, a vi com um rapaz ao lado dela. Aproximei-me, dizendo tristemente um “Olá”.

            Seus olhos transmitiam felicidade, como em um conto de fadas. Respondeu-me com um alegre “como vai, amiga?” e apresentou-me o rapaz, então namorado dela. Sorri, segurando uma lágrima. Começamos a conversar e ele precisou ir embora. Sentamos, eu e ela, em um dos bancos da praça. Ela estava linda! Os olhos sorriam, e o sorriso... Mais bonito do que eu lembrava. Triste, concordei que ele estava fazendo bem à ela.

- Nossa, você não vai acreditar! O Márcio adora café também! – ela disse isso com um sorriso no rosto.

- Jura? – pegou-me de surpresa, tive cautela ao responder. – Ah, está vendo? Ele sabe o que é bom!

- É, vocês dois devem fazer um complô contra mim! – e começou a rir.

            Senti falta daquela risada deliciosa, do nariz franzido, as covinhas no rosto, os dentes brancos, a boca vermelha e cheia. Suspirei, fechando os olhos. Depois daquele dia, nunca mais a vi. Meus poemas variavam dos mais tristes e melancólicos aos cheios de raiva e dor, mágoa e sarcásticos. Machucavam-lhe, e eu nem fazia ideia disso.

            Quando pedi para lhe ver, recusou veementemente. Não queria, de jeito nenhum. Como se eu fosse algo ruim para sua vida. Não queria saber de mim, nunca mais. Disse que gostava dos meus textos, e só. Mas como podia gostar, sendo que meus textos expunham o que eu sentia, na maioria das vezes?

            Foi então que eu entendi, como havia mudado tanto? Para onde fôra toda a doçura que eu tinha dentro de mim? Nas palavras? Evaporaram, assim como você foi embora da minha vida. Continuei, buscando um sentido para mim, para a vida, buscando um novo amor, sabendo que, no fundo, nunca encotraria. Para mim, você era a mulher da minha vida e sempre seria.

            Um dia, muito tempo depois, um livro meu fazia o maior sucesso nas livrarias. Uma mulher com os cabelos pintados da cor do fogo passou com uma namorada por uma livraria de São Paulo e viu o livro. Voltou e olhou, curiosa. Pegou o livro, sentindo uma boa sensação ativada pela memória. Abriu-o, e na segunda página, leu os seguintes dizeres, que a fez estremecer:

“Este livro conta a história de um amor impossível, mas que foi concretizado, nem que por apenas sete dias. Esta é a história de uma mulher, que apaixonou-se por outra, perdidamente. E dedico à ela, a quem eu chamo Beija-Flor, a menina mulher que viverá para sempre viva em minha memória, mesmo que ela não saiba o quanto este coração cansado ainda sangra por ela...”  
           
FIM



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Nota da Autora: Espero que tenham gostado da história. Escrevi isso porque percebi como eu não falei o suficiente tudo de bom que eu sentia. Um dia, perguntei-me porque tudo o que eu falava era tão cruel, cheio de mágoa e dor, tristeza. Eu nunca falava sobre o que era bom, o que eu admirava e o que eu gostava nela. Sei que ela provavelmente não lerá e se ler, não gostará. Sei que para ela sou um fantasma, estranho, que não a deixa viver em paz. Só tentei passar pro papel tudo o que eu sentia, isso não mudará em nada, mas... 

3 comentários

  1. Gostei da parte da chuva.

    http://animemeison.blogspot.com/

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  2. Conto docemente amargo. Perfeitamente extasiado. Lindamente cruel.

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    1. Olá, que bom que gostou! É raro eu ter comentários no blog, especialmente comentários sobre os contos. Fico muito feliz que tenha gostado, e que tenha vindo comentar. E adorei o comentário. Acho que o amor pode ser lindamente cruel às vezes... Então por que não demonstrar isso nos contos? Obrigada.

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