7 Dias Com Ela - Capítulo 2


Solos de Guitarra

         Na manhã seguinte parti para a minha faculdade. Mas quem disse que eu conseguia pensar em outra coisa? Estava suspirando pelos cantos. Ela era totalmente perfeita, e só de pensar que gostava um pouquinho de mim, já me deixava feliz. Quando o sinal tocou para o fim de aula, saí saltitante de dentro da sala. Na porta da faculdade me veio a surpresa: Ela me esperava ali, encostada em seu carro, um fusca vermelho.

- Vamos dar uma volta? – sugeriu, com um sorriso no rosto.

            Estava linda! Calça jeans, uma blusa azul que deixava o ombro esquerdo à mostra, uma sapatilha nos pés. Sorri, radiante, respondendo:

- Minha mãe disse para eu não sair com estranhos. – cheguei perto dela, olhos nos olhos.

- Eu não sou estranha. Você me conhece mais do que a mim mesma. Ou não. Ou quem sabe? – sorriu e eu não pensei duas vezes.


            Dirigiu até o centro da cidade. Deixei meus cadernos no banco de trás daquele fusca que fora a única coisa que ela comprara sozinha, por isso tinha orgulho dele. Descemos e andamos para cima e para baixo. Entramos na primeira loja de CDs que vimos, gostos iguais, oras bolas! Olhando caixinha por caixinha, ríamos das bandas sem noção de hoje em dia e exclamávamos vez ou outra com as bandas antigas.

            Compramos alguns CDs, de vários estilos e rumamos para outra loja. Uma roupa na vitrine chamou-lhe a atenção. Um vestido rodado e florido, ela parecia tão atraída por aquela peça de roupa!

- Vem, vamos entrar! – eu disse, puxando-a para dentro.

            Pedimos o bendito vestido e mais alguns shorts e blusas coloridas. Ela entrou em uma das cabines e eu fiquei do lado de fora, esperando. Saiu com o vestido, estava linda! A pele morena dela ficava acentuada, me encantando mais, se é que isso era possível.

- Ficou perfeito para você! – disse, sem tirar os olhos dela.

- É, eu também acho. – seus olhos brilharam.

            Entrou novamente, trocando de roupa. Quando saiu, estava com um mini short e uma camiseta toda recortada, deixando a barriga de fora. Começou a cantar um funk qualquer aí, enquanto rebolava. Caímos na risada e eu balancei a cabeça negativamente.

- Sem chance né? – perguntou, divertida.

- Sem chance! – concordei.

            Após algumas trocas de roupa, pagamos os dois vestidos que ela escolheu e voltamos para casa, dela. Pegou os CDs e colocou um deles no aparelho de som. Os solos de guitarra começaram a tocar e ela começou a balançar-se no ritmo, jogando o cabelo para frente e para trás, com a lingua de fora, fazendo caretas, franzindo o nariz. Como eu adorava quando ela fazia aquilo! Franzia o nariz, abrindo a boca e mostrando os dentes.

Para qualquer um pareceria estranho, para mim era fofo. Principalmente porque era o jeito dela de ser, sem medos, sem receios. Fazia o que queria, brincava, cantava, dançava. Não se importava. Sabe criança? Então, era nesses momentos que eu me esquecia do mundo e ficava ali, admirando-a.

            Puxou-me para o centro da sala, dançando ao meu lado, batendo o quadril, dando risada. E eu? Deixava-me levar, maravilhada demais. Caímos cansada em cima do sofá, e enquanto eu me recuperava, ela olhou para mim, sorrindo zombeteiramente, dizendo:

- Amo-te. – mal disse, levantou-se e saiu correndo.

            Deixou-me boqui-a-berta, sem saber o que fazer ou dizer. Corri atrás dela, sem parar de dizer um “O que você disse?”. Ela parou em seu quarto, pulando na cama, sentando-se por sobre as pernas. Continuava com aquele sorriso encantador no rosto. Parei na porta, recuperando o fôlego.

- O que você disse?

- Quer ser minha namorada? – mudou a pergunta, mas eu ainda estava sem fala.

- Eu... É claro que eu quero! – o que mais eu poderia dizer?

            Corri e pulei na cama, ao seu lado. Comecei a fazer cócegas em sua barriga, braços, quadris. Sua risada era o meu remédio, me curava de todo o mal, me fazia bem. Parei, olhando-a nos olhos e beijei-a, sentindo seus lábios macios nos meus. Tinham um gosto bom, e eram quentes. Ela mordeu meu lábio inferior, com um sorrisinho.

            Deitou-se por sobre o meu peito e ali ficou, fechou os olhos, escutando as batidas do meu coração. Eu, feliz, olhava em volta. O seu quarto transmitia um pouco da sua personalidade: um guarda-roupa que variava das roupas mais coloridas, aos vestidos mais bonitos e elegantes. Dos salto altos até as sapatilhas e as havaianas. Um violão no canto do quarto, as paredes brancas, mas uma delas era lilás.

- Faz um favor para mim? – perguntei, e ela olhou-me, sorrindo.

- O que você quiser.

- Toca algo para mim. – e apontei o violão.

            Ela levantou-se, andou até o canto pegando o violão e sentou-se no chão do quarto, sentei-me de frente para ela, encostando as costas na beirada da cama. Fechou os olhos, pensando em qual melodia iria tocar. Olhei bem, cada detalhe, tentando guardar na memória, para nunca mais esquecer. Por fim, achou uma melodia que lhe agradasse e começou a cantar.

Engraçado, ela podia não gostar de tudo o que eu gostava, mas na maioria das vezes, eu gostava de tudo o que ela gostava. E ela sabia exatamente quais músicas mexiam comigo, com suas letras e melodias. Começou a tocar os acordes, e sua voz começou a cantar uma melodia só para mim.

“To com saudade de você,
Do nosso banho de chuva,
Do calor na minha pele
Da língua tua.
To com saudade de você
Censurando o meu vestido,
As juras de amor ao pé do ouvido,
Truque do desejo,
Guardo na boca o gosto do beijo.

Eu sinto a falta de você,
Me sinto só”

            Sorri. Não importava se ela desafinava ou não, se não seria cantora, para mim a voz dela era perfeita. Sabe, quando a gente está apaixonado, tudo se torna bonito, fofo, charmoso. Aliás, tudo o que já é bonito, acentuamos as qualidades. E quando estamos amando? Acentuamos também os defeitos. Por isso sabia que a amava.

            Colocou uma mecha do cabelo atrás da orelha e eu adorava aquela orelha! Pequena, com a pontinha virada para trás, só a pontinha. Eram detalhes, que de tanto eu observar, tinha gravado na mente. De repente, voltei a prestar a atenção na música que ela cantava. Sorri, e eu disse, ao fim da música:
- Você não está mais só. – tirei-lhe o violão das mãos. 

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