7 Dias Com Ela - Capítulo 1



Sorrisos e Xícaras



          Havia tantas coisas que eu admirava nela! Uma das coisas que eu mais gostava era quando ela tomava café. Aliás, chá, já que café lhe dava dor de cabeça. Sentada em cima das pernas, no chão da sala, com uma xícara grande e branca em suas mãos pequenas. Confortavelmente vestida, em jeans e uma camiseta larga, os cabelos loiros em desalinhos. Eu ficava ali, de frente para ela, e achava a coisa mais fofa do mundo quando ela levava a xícara aos lábios rosados e cheios. Só conseguia enxergar os olhos cor de chocolate contrastando com a brancura da xícara.

            Acho que eu ficava tanto tempo admirando-a, que um sorriso escapava dos seus lábios, e um leve “O que foi?” quebrava o silêncio instalado ali. Eu ria baixinho, respondendo:


- Nada. Só acho que você é a pessoa mais fofa desse mundo.

            E ela sorria, e ria,  mostrando os dentes. Balançava a cabeça de um lado pro outro, discordando. Limitava-me a ficar quieta, quem era eu para brigar com aquela mulher? Mas falando sério, quem era eu para continuar o rumo daquela conversa? Não passava de uma amiga, que por estar andando no meio da rua com ela, foi pega de surpresa por uma chuva forte. Como a casa dela era mais próxima, o caminho mais lógico a se tomar fora aquele. E lá estávamos nós.

            Resolvi mudar de estratégia. Se eu continuasse olhando-a, não iria conseguir me conter. Coloquei uma música no aparelho e coloquei os fones de ouvido, voltando a minha leitura. Não tardou cinco minutos, curiosa que só ela, levantou-se e veio até mim, engatinhando. Impossível desviar minha atenção dela. Parou ao meu lado, deitando-se de barriga para cima, indagando:

- O que está fazendo?

- Ouvindo música. E lendo. – e como ela continuava a me olhar, perguntei:

- Quer ouvir também?

            Balançou a cabeça efusivamente. Retirei um fone e dei para ela, que colocou-o no ouvido. Era uma dessas músicas meio balada romantica. Seus olhos grudaram nos meus e dali não quiseram mais sair. Sabíamos, a música dizia muito sobre nós, mas éramos muito tímidas para dar o primeiro passo, então ficamos ali, a nos encarar, no silêncio de um olhar.

            Suas mãos eram pequenas, mas tinha os dedos compridos e finos. Coloquei minha mão por sobre a sua barriga e voltei a olhá-la nos olhos. Ela permaneceu quieta. Passei a mão por sobre o seu braço, quente, macio, e os pelos se arrepiaram contra meus dedos. Voltei a passar a mão por sobre a barriga, levantando a camiseta. Meus dedos deslizando em sua pele lisa e quente. Fazia desenhos imaginários, enquanto me deixava levar pela melodia.

- Você tem um corpo lindo... – disse quase sem querer, enquanto ainda prestava atenção às linhas do quadril.

- Não seja boba! - sua risada ecoou nos meus ouvidos. Era tão bom ouví-la rir, eu poderia escutá-la o dia inteiro, sem reclamar, apenas admirando.

- Mas é sério! Tudo em você é tão belo e poético... Eu... Eu gostaria de poder... Achar as palavras certas para conseguir te descrever.

            Ela sorriu timidamente baixando o olhar. Suas bochechas tomaram um tom rosado, puxado para o vermelho.

- Eu adoro quando você fica vermelha de vergonha. É tão lindo. – ela riu de novo.

- Para! Assim você me deixa sem graça.

            Sorri, calando-me. Não sabia se devia ou não dizer o que me sufocava. Olhei para a janela, a chuva continuava a cair, o dia estava nublado, mas para mim o dia permanecia lindo, porque ela estava ali. Olhei-a novamente, ela estava curiosa, provavelmente indagando o que eu estaria fazendo. Não aguentei.

- Preciso te dizer algo. Sério. – baixei o olhar.

- Pois então diga. – encarou-me, séria.

- Eu gostava de você. – proferi as palavras como se me doessem no peito.

- Gostava? – aquilo fez com que eu me voltasse para ela, olhando-a nos olhos. Eu podia jurar que havia um novo brilho em seu olhar.

- Não. Ainda gosto. E muito. – dessa vez sustentei.

- Eu também gosto de você. – veio acompanhado de um sorriso.

            Não pude acreditar, não podia ser verdade! Olhei-a e ela continuou sorrindo para mim, era algo tão inocente! Se soubéssemos... Mas éramos quase crianças, na maneira de agir. Lembro-me de sorrir sem parar, rir do nada e continuar repetindo o quão maravilhoso aquilo era. E ela ria de mim. E eu sorria do seu riso. Coisas tão bobas, mas tão gostosas de lembrar!

            Ela sentou-se novamente, bem perto de mim. Desta vez, ela me fitava, parecendo querer gravar cada detalhe do meu rosto. Pulou em cima de mim, me fazendo rir. Adorava essa espontaneadade dela, essa coisa meio de criança.

- Me dá vontade de te morder! – a voz dela era melodia aos meus ouvidos.

- Você não faria isso... – olhei-a de soslaio.

            Ela levantou uma sobrancelha e me desafiando, começou a morder minhas bochechas, enquanto eu ria. Depois mordiscou meu queixo, meu pescoço, meus ombros, e sua pele quente em contato direto com a minha era tão bom! Ela sentiu que eu arrepiei inteirinha. Sorriu com uma malícia de jovem moça e deitou-se ao meu lado, por cima do meu braço e ali ficou. Encostou a cabeça no meu peito, pensando. Éramos de tão poucas palavras, era tudo tão simples!

- Podemos ficar assim para sempre? – ela disse, me surpreendendo.

- Só se me prometer que vai sempre tomar chá naquela xícara branca. – ela sorriu e continuou:

- Tudo bem, mas só se você prometer sempre guardar doces palavras para mim.

            Dei-lhe um beijo por cima dos cabelos, como eram cheirosos! Era um cheiro de shampoo de tuti-fruti, mas ainda assim, era bom. Respondi-lhe que sempre guardaria, mas não sabia que estava cometendo o maior dos erros. Eu só queria poder guardar todos aqueles sorrisos e aquela imagem da xícara na minha mente. Algo tão naturalmente bobo, tolo e infantil, mas que me faria lembrar sempre da garota doce e meiga que ela era, e que nunca deixaria de ser. Adormecemos ali, selando no silêncio das nossas ações, um compromisso. 

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